quinta-feira, 17 de setembro de 2020

SEMANA 19 — MEDO

Da Proteção, do Alerta e da Sobrevivência

Quantas decisões da sua vida foram tomadas pelo que desejava — e quantas foram tomadas pelo que tinha medo que acontecesse?

“Não vou.”

“Não consigo.”

“É melhor não arriscar.”

“E se correr mal?”

“E se eu falhar?”

“E se me rejeitarem?”

“E se eu perder?”

“E se eu não conseguir voltar atrás?”

Às vezes chamamos prudência.

Outras vezes dizemos que não é o momento certo.

Criamos explicações perfeitamente razoáveis.

Mas, por baixo delas, pode existir uma palavra muito simples:

MEDO

A décima nona emoção da nossa Biblioteca das Emoções.


O MEDO NÃO NASCEU PARA NOS IMPEDIR DE VIVER

Nasceu para ajudar-nos a continuar vivos.

O medo é uma das emoções mais antigas e fundamentais do ser humano. Funciona como um sistema de alarme que identifica possíveis ameaças e prepara rapidamente o organismo para responder.

Por isso, sentir medo não significa necessariamente:

“Sou fraco.”

Pode significar simplesmente:

“O meu sistema de proteção foi ativado.”

O problema começa quando:

o alarme continua a tocar mesmo quando já não existe incêndio.


O CORPO TEM MEDO ANTES DE TERMOS UMA EXPLICAÇÃO

O coração acelera.

A respiração muda.

Os músculos ficam tensos.

A atenção estreita-se.

O corpo prepara-se.

Talvez para fugir.

Talvez para lutar.

Talvez para ficar imóvel.

O capítulo descreve precisamente estas respostas e sintetiza a mensagem do medo numa expressão muito clara:

“Protege-te agora.”

Por isso, quando sentir medo esta semana, experimente não começar por perguntar:

“Como faço isto desaparecer?”

Pergunte primeiro:

“Do que estou a tentar proteger-me?”


HOJE TEMEMOS COISAS QUE NÃO NOS PODEM MORDER

Os nossos antepassados precisavam reconhecer predadores e perigos físicos.

Nós continuamos a precisar disso.

Mas o ser humano desenvolveu uma extraordinária capacidade:

imaginar.

E, com ela, conseguimos sentir medo de coisas que ainda não aconteceram.

Tememos:

rejeição;

fracasso;

abandono;

humilhação;

mudança;

solidão;

perder dinheiro;

envelhecer;

adoecer;

não corresponder às expectativas;

ser julgados;

tomar a decisão errada.

O próprio capítulo mostra como o medo humano se tornou também simbólico e prospetivo: conseguimos antecipar cenários, projetar riscos e reviver ameaças mesmo quando o perigo não está presente naquele momento.

E então surge uma pergunta fundamental:

“Aquilo de que tenho medo está a acontecer agora — ou está a acontecer na minha imaginação?”


MEDO REAL E MEDO IMAGINADO

Se um carro vem na nossa direção:

proteja-se.

Se existe uma ameaça concreta:

afaste-se.

Se a sua integridade está em risco:

o medo está a cumprir a sua função.

Mas imagine:

“Vou apresentar um projeto.”

E surge:

“Vão achar ridículo.”

Ou:

“Gostaria de mudar de profissão.”

E surge:

“Vai correr tudo mal.”

Ou:

“Preciso dizer aquilo que penso.”

E surge:

“Se disser, vou perder esta pessoa.”

Agora já não estamos apenas perante factos.

Estamos perante:

previsões.

O livro destaca precisamente a necessidade de distinguir riscos reais de riscos imaginados.


EXERCÍCIO DA SEMANA

FACTO OU PREVISÃO?

Durante sete dias, sempre que perceber medo, escreva:

Tenho medo de: __________

Depois:

O QUE SEI

Que factos concretos existem?

O QUE IMAGINO

O que estou a prever?

O QUE TEMO

Qual é o pior cenário que a minha mente está a construir?

O QUE POSSO FAZER

Existe alguma ação concreta que reduza o risco?

O QUE NÃO CONTROLO

Que parte não depende de mim?

E termine:

“Neste momento, existe perigo ou existe possibilidade de perigo?”

Esta distinção pode mudar completamente a forma como nos relacionamos com o medo.


EXISTE UM MEDO POR BAIXO DO MEDO

Às vezes dizemos:

“Tenho medo de falar em público.”

Mas talvez exista:

“Tenho medo de ser julgado.”

Depois:

“Tenho medo de parecer incompetente.”

E ainda mais fundo:

“Tenho medo de não ser suficiente.”

Experimente esta sequência:

“Tenho medo de…”

Depois pergunte:

“E se isso acontecesse, o que eu temeria?”

Responda.

E pergunte novamente:

“E se isso acontecesse?”

Continue algumas vezes.

Talvez descubra que o medo visível não é necessariamente o medo mais profundo.


O MEDO DE DESAGRADAR

Esta pergunta liga-se profundamente a algo que temos trabalhado na Biblioterapia com Edmar:

“Quantas escolhas nascem verdadeiramente de nós — e quantas nascem do medo de desagradar?”

Às vezes dizemos “sim” quando queremos dizer “não”.

Não mostramos uma opinião.

Aceitamos uma situação.

Mudamos a nossa forma de ser.

E talvez não seja porque desejamos agradar.

Talvez seja porque tememos:

o que poderá acontecer se deixarmos de agradar.

Rejeição?

Conflito?

Abandono?

Crítica?

Solidão?

Perder uma relação?

Então pergunte:

“Qual é o medo que está por baixo da minha necessidade de agradar?”

Esta pergunta pode levar-nos muito mais fundo.


QUANDO O MEDO COMEÇA A ESCREVER A NOSSA HISTÓRIA

Imagine duas estradas.

Numa está escrito:

“AQUILO QUE DESEJO.”

Na outra:

“AQUILO QUE ME PARECE MAIS SEGURO.”

Nem sempre precisamos escolher a primeira.

Prudência é importante.

Mas existe uma pergunta:

“Estou a escolher segurança — ou estou simplesmente a evitar viver?”

Porque o medo pode proteger-nos do perigo.

Mas, quando excessivo, também pode levar a evitamento, paralisia e retração, reduzindo progressivamente a autonomia.

O capítulo resume esta distinção de forma particularmente forte:

O MEDO SAUDÁVEL PROTEGE.

O MEDO DESREGULADO RESTRINGE.


EXERCÍCIO

A MINHA VIDA DIMINUIU POR CAUSA DE ALGUM MEDO?

Complete:

“Se eu não tivesse tanto medo de __________, talvez eu…”

Escreva pelo menos dez respostas.

Talvez:

falasse;

viajasse;

mudasse;

terminasse;

começasse;

pedisse;

dissesse não;

dissesse sim;

mostrasse o meu trabalho;

conhecesse alguém;

voltasse a estudar;

tentasse novamente.

Depois circule apenas uma.

Não a mais espetacular.

Aquela em que consegue dar um pequeno passo real esta semana.


CORAGEM NÃO É AUSÊNCIA DE MEDO

Talvez esta seja a ideia central da Semana 19.

Esperamos muitas vezes:

“Quando deixar de ter medo, faço.”

Mas talvez esse momento nunca chegue.

O próprio livro define coragem não como ausência de medo, mas como a capacidade de agir apesar dele.

Por isso:

MEDO + AÇÃO = CORAGEM

Não precisamos eliminar completamente o medo.

Precisamos aprender a não lhe entregar todas as decisões.


EXERCÍCIO DOS 5%

Escolha algo que o medo esteja a impedir de fazer.

Agora não tente resolver 100%.

Pergunte:

“Qual seria um passo 5% mais corajoso?”

Se tem medo de falar:

diga uma frase.

Se tem medo de mostrar um projeto:

mostre-o a uma pessoa.

Se tem medo de iniciar algo:

dedique vinte minutos.

Se tem medo de colocar um limite:

comece por escrever aquilo que gostaria de dizer.

Se tem medo de uma conversa:

marque-a.

Se tem medo de aprender:

faça a primeira aula.

Não precisa atravessar a montanha hoje.

Dê apenas um passo que prove ao seu medo que ele não precisa decidir tudo.


UM MINUTO PARA REGRESSAR AO PRESENTE

Quando perceber o medo:

Coloque os pés firmemente no chão.

Respire lentamente.

Observe cinco coisas à sua volta.

Depois diga:

“Neste momento estou aqui.”

Pergunte:

O que está realmente a acontecer agora?

Existe perigo imediato?

O que depende de mim neste momento?

O livro inclui reconhecimento emocional, respiração, relaxamento e reavaliação das interpretações entre as estratégias de regulação do medo.


E SE O MEDO ESTIVER CERTO?

Esta pergunta também precisa existir.

Nem todo medo deve ser enfrentado.

Alguns precisam ser respeitados.

Se existe perigo real:

proteja-se.

Se existe risco importante:

prepare-se.

Se não possui informação:

procure-a.

Se precisa de apoio:

peça-o.

Coragem não significa imprudência.

Consciência é distinguir quando avançar, quando preparar-se e quando afastar-se.


A CONVERSA COM O MEDO

Esta semana escreva uma pequena carta.

Comece:

“Querido medo, percebo que estás a tentar proteger-me de…”

Continue livremente.

Depois escreva:

“Obrigado por tentares proteger-me.”

E finalmente:

“Mas esta decisão será tomada por mim.”

Talvez seja esta a nova relação que queremos construir com o medo.

Não expulsá-lo.

Não ridicularizá-lo.

Não obedecer-lhe automaticamente.

Escutá-lo — e depois escolher.


NO FINAL DOS SETE DIAS

Releia os seus registos e responda:

“Quais são os meus medos mais frequentes?”

“Quais correspondem a riscos concretos?”

“Quais vivem sobretudo na antecipação?”

“Que medo aprendi com outras pessoas?”

“Que medo já não corresponde à pessoa que sou hoje?”

“Que decisões tenho adiado por medo?”

“O que o medo está a tentar proteger em mim?”

E finalmente:

“Se o medo pudesse aconselhar-me, mas não decidir por mim, o que eu escolheria?”


A PERGUNTA DA SEMANA

O capítulo termina com uma proposta muito clara: trabalhar o medo é escutar os seus sinais sem nos deixarmos dominar por eles, distinguir riscos reais e imaginados e transformar proteção em força consciente.

Talvez, portanto, não precisemos perguntar:

“Como posso deixar de sentir medo?”

Talvez seja mais transformador perguntar:

“Como quero viver mesmo sabendo que algumas coisas me assustam?”

Porque talvez a coragem não comece quando o medo termina.

Talvez a coragem comece quando deixamos de esperar que ele termine para começar a viver.


NA PRÓXIMA SEMANA

SEMANA 20 — RAIVA
Da Defesa, dos Limites e da Força Transformadora


📖 PARA APROFUNDAR ESTA EMOÇÃO

Esta reflexão e os exercícios da Semana 19 — Medo foram inspirados e adaptados do livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, de Edmar Silva, especialmente do capítulo “Medo — Da Proteção, do Alerta e da Sobrevivência”.

Na obra, o medo é aprofundado como mecanismo de proteção e alerta, mas também na sua relação com memória, imaginação, antecipação, evitamento, regulação emocional e coragem.

BIBLIOTERAPIA COM EDMAR — O ALFABETO DAS EMOÇÕES

Edmar Silva

O livro-base da Biblioteca das Emoções e do percurso pelas 27 emoções.


📚 OUTRA LEITURA DE EDMAR SILVA

ÂNCORA — QUEM ESTÁ A ESCREVER A TUA HISTÓRIA?

Para a Semana do Medo, esta ligação parece-me especialmente forte.

Porque talvez uma das perguntas centrais da coleção ÂNCORA seja também uma das perguntas centrais desta emoção:

“Quem está a escrever a minha história: as minhas escolhas ou os meus medos?”

O medo pode participar na nossa história.

Pode avisar.

Pode proteger.

Pode pedir prudência.

Mas não precisa ser o autor.

Talvez algumas páginas da nossa vida tenham sido escritas pelo medo de falhar.

Outras pelo medo de desagradar.

Outras pelo medo de perder.

Outras pelo medo da opinião dos outros.

Então experimente perguntar:

“Que capítulo da minha vida eu escreveria de maneira diferente se o medo deixasse de segurar a caneta?”

Não significa escrever sem medo.

Significa recuperar a autoria apesar dele.

Edmar Silva
Biblioterapia com Edmar

LER. SENTIR. COMPREENDER. TRANSFORMAR.

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