Da Beleza e do Significado
Será que só reconhecemos o verdadeiro valor das coisas quando começamos a perdê-las?
Passamos todos os dias por pessoas, lugares, objetos e pequenos acontecimentos que fazem parte da nossa vida.
Uma casa.
Uma conversa.
Uma árvore que encontramos no mesmo caminho.
Uma música.
Uma pessoa que está sempre ali.
O café da manhã.
Uma mensagem inesperada.
Um abraço.
E, porque estão presentes tantas vezes, podemos deixar de os ver verdadeiramente.
Até que um dia alguma coisa muda.
E aquilo que parecia comum revela o valor que sempre teve.
Talvez seja justamente aí que encontremos a terceira emoção da nossa Biblioteca das Emoções:
APRECIAÇÃO
No livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, a apreciação é apresentada como uma emoção despertada pela beleza, harmonia e expressividade, relacionada com a nossa capacidade de perceber detalhes e atribuir significado àquilo que observamos.
Depois da Admiração, que nos convidou a olhar para aquilo que nos maravilha, e da Adoração, que nos levou ao território dos vínculos profundos, chegamos agora à capacidade de:
reconhecer o valor daquilo que está diante de nós.
QUANTAS COISAS DEIXÁMOS DE VER PORQUE NOS HABITUÁMOS A ELAS?
O extraordinário nem sempre chega acompanhado de grandes acontecimentos.
Às vezes está na luz que atravessa uma janela.
Na forma de uma flor.
Numa música.
Na arquitetura de um edifício.
Na delicadeza de um gesto humano.
Nos pequenos detalhes que o livro utiliza para mostrar como a apreciação pode estar presente na vida quotidiana.
Talvez o problema não seja a ausência de beleza.
Talvez seja a velocidade com que passamos por ela.
Estamos tão ocupados a procurar aquilo que ainda não temos que podemos deixar de apreciar aquilo que já conquistámos.
Desejamos a próxima viagem antes de terminar esta.
Pensamos na próxima conquista antes de celebrar a atual.
Procuramos novas relações enquanto deixamos de cuidar das que já existem.
Queremos mais.
Mais depressa.
Mais longe.
E surge então uma pergunta desconfortável:
“Quanto da minha vida atual já foi, um dia, exatamente aquilo que eu desejava ter?”
E EM SI?
Olhe para a sua vida neste momento.
Não para aquilo que falta.
Olhe primeiro para aquilo que já existe.
Quem permanece ao seu lado?
Que coisas possui hoje que há alguns anos desejava conquistar?
Que pessoas se tornaram tão presentes que deixou de lhes dizer o quanto são importantes?
Que pequenos prazeres se tornaram tão habituais que quase deixaram de ser percebidos?
Existe algum lugar da sua casa de que gosta especialmente?
Algum livro que o acompanhou num momento importante?
Alguma música que guarda uma parte da sua história?
Alguma pessoa cuja presença se tornou tão habitual que só imagina o seu verdadeiro valor quando pensa na possibilidade de ela não estar?
E agora uma pergunta ainda mais pessoal:
“Será que também consigo apreciar aquilo que existe em mim?”
As suas conquistas.
A sua história.
O caminho percorrido.
Aquilo que conseguiu superar.
A pessoa que se tornou.
Porque podemos passar anos a reconhecer beleza e valor nos outros enquanto permanecemos especialistas em encontrar defeitos em nós próprios.
EXERCÍCIO DA SEMANA
SETE DIAS PARA VOLTAR A VER
Durante os próximos sete dias, escolha conscientemente uma coisa por dia que normalmente passa despercebida.
Não procure necessariamente algo extraordinário.
Procure algo verdadeiro.
Pode ser uma pessoa.
Um objeto.
Um lugar.
Uma música.
Uma refeição.
Uma paisagem.
Uma parte do seu corpo.
Uma capacidade sua.
Uma memória.
Um gesto recebido.
Ou simplesmente alguns minutos de silêncio.
Pare durante um momento.
Observe.
E escreva:
Hoje escolhi apreciar: __________
O que existe aqui que normalmente não vejo? __________
Que emoção surge quando paro verdadeiramente para observar? __________
Que significado isto tem na minha história? __________
O que sentiria se amanhã isto já não estivesse na minha vida? __________
E termine sempre com:
“Hoje percebi que…”
Complete a frase sem pensar demasiado.
NO SÉTIMO DIA: VOLTE A LER
No final da semana, releia os sete registos.
Agora procure algo em comum entre eles.
Talvez descubra que aquilo que realmente tem valor para si não corresponde exatamente àquilo que ocupa mais espaço na sua agenda.
Talvez descubra que algumas das coisas que mais aprecia não podem ser compradas.
Talvez perceba que tem procurado longe aquilo que, de alguma forma, já estava perto.
E então pergunte:
“A forma como estou a viver demonstra aquilo que digo valorizar?”
Esta pergunta muda o exercício.
Porque apreciar não é apenas reconhecer que alguma coisa é importante.
É também perguntar se a maneira como vivemos corresponde ao valor que lhe atribuímos.
UMA EXPERIÊNCIA DIFERENTE
Escolha uma pessoa importante para si.
Mas não lhe diga apenas:
“Gosto muito de ti.”
Diga-lhe porquê.
Diga-lhe alguma coisa concreta que aprecia nela e que talvez nunca tenha verbalizado.
“Aprecio em ti…”
Complete a frase.
Depois observe o que acontece no outro.
E, sobretudo, observe o que acontece dentro de si.
A PERGUNTA DA SEMANA
No livro, a apreciação é associada à capacidade de reconhecer beleza e significado através da atenção, da sensibilidade e da contemplação. Ela pode estar na arte e na natureza, mas também nos detalhes mais simples da experiência quotidiana.
Na parte prática da obra surge ainda uma ideia que considero particularmente bonita: apreciar significa reconhecer “o valor, a beleza e a presença do que nos rodeia”, sem necessidade de possuir ou controlar.
Por isso, durante esta semana leve consigo esta pergunta:
“Se amanhã perdesse aquilo que hoje considero garantido, o que desejaria ter apreciado mais enquanto ainda estava comigo?”
Talvez não seja preciso esperar pela ausência para descobrir o valor da presença.
NA PRÓXIMA SEMANA
📖 PARA APROFUNDAR ESTA EMOÇÃO
Esta reflexão e os exercícios apresentados nesta Semana 03 — Apreciação foram inspirados e adaptados a partir do livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, de Edmar Silva, especialmente do capítulo dedicado à Apreciação — Da Beleza e do Significado e das propostas práticas da obra.
Para conhecer esta emoção com maior profundidade e continuar a explorar o percurso das 27 emoções, procure o livro:
BIBLIOTERAPIA COM EDMAR — O ALFABETO DAS EMOÇÕES
Edmar Silva
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