Reconhecendo as suas conquistas
Porque conseguimos contar os nossos erros com tanta facilidade — mas tantas vezes temos dificuldade em dizer: “Tenho orgulho em mim”?
Pergunte a alguém:
“Qual foi o seu maior erro?”
Provavelmente encontrará rapidamente uma resposta.
Agora pergunte:
“De que sente verdadeiramente orgulho em si?”
Talvez apareça um silêncio.
“Não sei…”
“Não fiz nada de especial.”
“Há pessoas que fizeram muito mais.”
“Foi sorte.”
“Qualquer pessoa conseguiria.”
E assim diminuímos aquilo que conquistámos antes mesmo de permitir-nos reconhecê-lo.
É aqui que encontramos a vigésima segunda emoção da nossa Biblioteca das Emoções:
ORGULHO
ORGULHO NÃO É NECESSARIAMENTE ARROGÂNCIA
Durante muito tempo, a palavra “orgulho” recebeu significados contraditórios.
Para algumas pessoas, ter orgulho parece significar:
superioridade;
vaidade;
ego;
arrogância.
Mas existe outra forma de orgulho.
Uma forma que diz:
“Reconheço aquilo que consegui.”
“Reconheço o caminho que percorri.”
“Reconheço o esforço que fiz.”
“Reconheço o meu valor.”
No livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, o orgulho saudável está associado ao reconhecimento de competência, realização, superação de adversidades, coerência com os próprios valores e consciência do mérito.
Não é:
“Sou melhor do que tu.”
É:
“Consigo reconhecer aquilo que existe de valor em mim.”
QUANTAS CONQUISTAS JÁ NORMALIZOU?
Existe algo curioso.
Desejamos muito alguma coisa.
Trabalhamos.
Esperamos.
Tentamos.
Falhamos.
Tentamos novamente.
Finalmente conseguimos.
Celebramos durante algum tempo.
Depois...
torna-se normal.
Aquilo que um dia parecia impossível passa a fazer parte do quotidiano.
E esquecemos a pessoa que precisámos tornar-nos para chegar até aqui.
Pergunte:
“O que existe hoje na minha vida que, há dez anos, eu teria considerado uma grande conquista?”
Talvez seja:
uma profissão;
uma casa;
um relacionamento;
um livro escrito;
um curso concluído;
uma mudança de país;
um projeto;
uma família;
uma recuperação;
uma decisão difícil;
uma independência conquistada;
ou simplesmente:
ter continuado.
NEM TODA CONQUISTA TEM UM DIPLOMA
Algumas conquistas não aparecem num currículo.
Ninguém entrega certificados por:
ter colocado um limite;
ter saído de uma relação destrutiva;
ter pedido ajuda;
ter recomeçado;
ter aprendido a dizer “não”;
ter pedido desculpa;
ter cuidado de alguém;
ter sobrevivido a um período difícil;
ter conseguido levantar-se numa manhã em que tudo parecia pesado;
ter mudado uma crença;
ter voltado a confiar;
ter aprendido a estar sozinho;
ter permitido amar novamente.
E talvez algumas destas sejam precisamente:
as maiores conquistas da nossa vida.
EXERCÍCIO DA SEMANA
A LINHA DAS MINHAS CONQUISTAS
Pegue numa folha e desenhe uma linha desde o seu nascimento até hoje.
Agora marque momentos importantes.
Não coloque apenas sucessos profissionais.
Inclua:
O QUE CONSEGUI
O QUE SUPEREI
O QUE APRENDI
O QUE TIVE CORAGEM DE TERMINAR
O QUE TIVE CORAGEM DE COMEÇAR
QUANDO PEDI AJUDA
QUANDO DISSE NÃO
QUANDO RECOMECEI
QUANDO NÃO DESISTI
Depois observe a linha inteira.
E pergunte:
“Se esta história pertencesse a outra pessoa, eu conseguiria reconhecer melhor a coragem que existiu aqui?”
PORQUE É TÃO DIFÍCIL RECONHECERMO-NOS?
Talvez tenha aprendido:
“Não te gabes.”
“Sê humilde.”
“Não te aches melhor do que os outros.”
São aprendizagens que podem ter valor.
Mas talvez tenhamos confundido:
HUMILDADE
com
DIMINUIÇÃO.
Humildade não exige dizer:
“Não sou bom.”
Pode permitir dizer:
“Sou bom nisto — e continuo a ter muito para aprender.”
O capítulo propõe precisamente equilibrar orgulho com humildade, gratidão, abertura à aprendizagem e reconhecimento dos próprios limites.
O ORGULHO QUE PRECISA DE PLATEIA
Existe, porém, outro lado desta emoção.
Quando precisamos constantemente que alguém diga:
“Parabéns.”
“És incrível.”
“És o melhor.”
“Que extraordinário.”
E, quando não recebemos reconhecimento, sentimos que aquilo que fizemos perde valor.
Pergunte:
“Se ninguém soubesse que eu fiz isto, continuaria a sentir orgulho?”
Esta pergunta pode ajudar a distinguir:
ORGULHO AUTÊNTICO
de
NECESSIDADE DE VALIDAÇÃO.
O livro diferencia precisamente o orgulho baseado em competência, esforço, responsabilidade e integridade daquele que depende de superioridade, rigidez ou validação externa.
ORGULHO AUTÊNTICO E ORGULHO DEFENSIVO
Podemos resumir assim:
ORGULHO AUTÊNTICO
“Reconheço o meu valor.”
ORGULHO DEFENSIVO
“Preciso que reconheças o meu valor.”
No primeiro existe segurança.
No segundo pode existir necessidade constante de confirmação.
O livro acrescenta outra distinção importante: o orgulho autêntico nasce da realização e coerência interna; o defensivo pode nascer da insegurança e da necessidade de proteção.
UMA PERGUNTA DIFÍCIL
“Preciso ser melhor do que alguém para sentir que sou suficientemente bom?”
Observe.
Quando alguém próximo tem sucesso:
consegue celebrar?
Ou compara imediatamente?
“Ele conseguiu, eu não.”
“Ela tem mais.”
“Ele está à minha frente.”
Talvez o orgulho saudável permita uma frase muito libertadora:
“O sucesso do outro não diminui aquilo que existe de valor em mim.”
Podemos admirar alguém sem desaparecer.
EXERCÍCIO DOS SETE DIAS
UMA COISA DE QUE ME ORGULHO
Durante sete dias, antes de dormir, escreva apenas uma frase:
“Hoje tenho orgulho em mim porque…”
Pode ser algo grande.
Ou pequeno.
“Porque tive uma conversa difícil.”
“Porque mantive um limite.”
“Porque terminei uma tarefa.”
“Porque pedi ajuda.”
“Porque consegui descansar sem culpa.”
“Porque reconheci que estava errado.”
“Porque não respondi impulsivamente.”
“Porque comecei.”
“Porque continuei.”
Existe apenas uma regra:
NÃO ESCREVA “MAS”.
Não:
“Tenho orgulho, mas podia ter feito melhor.”
Não:
“Foi bom, mas qualquer pessoa conseguiria.”
Não:
“Consegui, mas ainda falta muito.”
Apenas:
“Hoje tenho orgulho em mim porque…”
Ponto final.
RECEBER UM ELOGIO TAMBÉM É UM EXERCÍCIO
Alguém diz:
“Fizeste um excelente trabalho.”
E respondemos:
“Não foi nada.”
“Tive sorte.”
“Nem ficou assim tão bom.”
“Qualquer pessoa faria.”
Esta semana experimente algo radicalmente simples.
Quando alguém lhe fizer um elogio verdadeiro, responda:
“Obrigado.”
E pare.
Não diminua.
Não explique.
Não devolva imediatamente.
Receba.
Talvez descobrir que somos capazes de receber reconhecimento seja tão importante quanto aprender a oferecê-lo.
ELOGIAR-SE SEM SE COMPARAR
Complete:
“Tenho orgulho em mim porque…”
Sem usar:
“mais do que…”
“melhor do que…”
“ao contrário de…”
“ninguém conseguiu…”
O capítulo recomenda precisamente celebrar progressos sem recorrer à comparação, reduzindo assim a dependência da validação externa.
A sua conquista não precisa da derrota de outra pessoa para ter valor.
ORGULHO DE QUEM NOS TORNÁMOS
Existe uma pergunta ainda mais profunda do que:
“O que consegui?”
É:
“Quem precisei tornar-me para conseguir?”
Talvez tenha desenvolvido:
coragem;
disciplina;
paciência;
resiliência;
criatividade;
humildade;
perseverança;
capacidade de pedir ajuda;
capacidade de recomeçar.
Às vezes a maior conquista não é aquilo que temos nas mãos.
É aquilo que nasceu dentro de nós enquanto tentávamos chegar lá.
EXERCÍCIO
A CONQUISTA INVISÍVEL
Escolha uma grande conquista da sua vida.
Agora retire o resultado.
Não escreva o diploma.
Não escreva o cargo.
Não escreva o livro.
Não escreva a casa.
Não escreva o prémio.
Escreva apenas:
“Para chegar até ali, precisei aprender…”
Depois:
“Precisei superar…”
“Precisei desenvolver…”
“Precisei deixar para trás…”
“Descobri em mim…”
E termine:
“Talvez a maior conquista não tenha sido chegar. Talvez tenha sido tornar-me capaz de chegar.”
E QUANDO O ORGULHO NOS IMPEDE DE PEDIR DESCULPA?
Também precisamos olhar para este lado.
“Eu não vou pedir desculpa.”
“Ele que venha falar comigo.”
“Não vou admitir que estava errado.”
“Não preciso de ninguém.”
Aqui o orgulho pode transformar-se numa armadura.
O capítulo alerta para formas disfuncionais associadas à incapacidade de admitir erros, competitividade excessiva e hipersensibilidade à crítica.
Pergunte:
“O meu orgulho está a proteger a minha dignidade — ou está a impedir-me de crescer?”
UMA FRASE QUE EXIGE CORAGEM
Experimente dizer esta semana, quando for verdadeiro:
“Eu estava errado.”
Ou:
“Não sei.”
Ou:
“Preciso de ajuda.”
Ou:
“Tu tinhas razão.”
Ou:
“Ainda tenho de aprender.”
Nenhuma destas frases diminui necessariamente o nosso valor.
Talvez mostrem que já não precisamos proteger uma imagem perfeita de nós próprios.
O ÁLBUM DAS CONQUISTAS
Crie no telemóvel ou num caderno um pequeno espaço chamado:
“COISAS QUE EU NÃO QUERO ESQUECER QUE CONSEGUI.”
Coloque:
fotografias;
mensagens;
certificados;
cartas;
momentos;
pequenas vitórias;
frases;
projetos;
memórias.
Não para mostrar aos outros.
Para recordar a si próprio.
Nos dias em que pensar:
“Não consigo.”
talvez possa olhar para trás e responder:
“Já houve outras vezes em que pensei isso.”
NO FINAL DOS SETE DIAS
Releia aquilo que escreveu e responda:
“De que conquistas tenho mais dificuldade em sentir orgulho?”
“Costumo diminuir aquilo que consigo?”
“Preciso demasiado da validação dos outros?”
“Consigo celebrar-me sem me comparar?”
“Consigo reconhecer os meus erros sem sentir que perco valor?”
“Que qualidade desenvolvi ao longo da minha história que hoje reconheço em mim?”
E finalmente:
“Se eu pudesse encontrar a pessoa que fui há dez anos, de que coisas ela sentiria orgulho ao olhar para quem sou hoje?”
A PERGUNTA DA SEMANA
O livro conclui que o orgulho equilibrado pode sustentar identidade, coragem e crescimento, enquanto o orgulho distorcido pode tornar-se uma armadura que impede abertura, aprendizagem e encontro com o outro.
Por isso, esta semana não lhe proponho dizer:
“Sou melhor.”
Proponho algo muito diferente:
“EU RECONHEÇO.”
Reconheço aquilo que fiz.
Reconheço aquilo que superei.
Reconheço aquilo que aprendi.
Reconheço aquilo que ainda preciso aprender.
Reconheço quem me ajudou.
Reconheço os meus limites.
E reconheço o meu valor.
Porque talvez humildade não seja diminuir-se para que ninguém se incomode com a nossa luz.
Talvez seja conseguir reconhecer a própria luz sem precisar apagar a luz de ninguém.
NA PRÓXIMA SEMANA
📖 PARA APROFUNDAR ESTA EMOÇÃO
Esta reflexão e os exercícios da Semana 22 — Orgulho foram inspirados e adaptados do livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, de Edmar Silva, especialmente do capítulo “Orgulho — Reconhecendo as suas conquistas”.
Na obra, o orgulho é aprofundado na relação com autoestima, identidade, mérito, motivação, resiliência, validação, humildade e crescimento.
BIBLIOTERAPIA COM EDMAR — O ALFABETO DAS EMOÇÕES
Edmar Silva
O livro-base da Biblioteca das Emoções e do percurso pelas 27 emoções.
📚 OUTRA LEITURA DE EDMAR SILVA
ÂNCORA — SEMEIA A TUA HISTÓRIA
Para a Semana do Orgulho, esta ligação é muito bonita.
Porque quando vemos uma árvore adulta, vemos os frutos.
Mas esquecemos:
a semente;
a terra;
as primeiras raízes;
os dias em que nada parecia estar a acontecer;
a água;
o tempo;
as tempestades;
e todo o crescimento invisível.
Talvez aconteça o mesmo connosco.
O orgulho saudável não olha apenas para o fruto e diz:
“Olhem o que consegui.”
Olha para todo o percurso e reconhece:
“Eu sei aquilo que precisei cultivar para chegar até aqui.”
Por isso, a ponte desta semana poderia ser:
SEMENTE → CUIDADO → PERSISTÊNCIA → CRESCIMENTO → CONQUISTA → RECONHECIMENTO
E deixaria o leitor com uma pergunta final:
“Que fruto existe hoje na minha vida que nunca teria nascido se eu tivesse desistido da semente?”
Talvez seja tempo de agradecer às pessoas que ajudaram a regá-la.
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