Da Desorientação e da Reorganização Cognitiva
E se estar confuso não significasse estar perdido — mas estar entre uma versão antiga e uma nova forma de compreender?
Há momentos em que nada parece encaixar.
Aquilo em que acreditávamos já não parece suficiente.
Uma decisão que antes parecia óbvia deixa de ser.
Uma relação começa a levantar perguntas.
Uma experiência contradiz aquilo que pensávamos saber.
Queremos uma coisa e, ao mesmo tempo, sentimos outra.
Pensamos:
“Não sei o que fazer.”
“Já não sei o que pensar.”
“Preciso perceber isto.”
E quanto mais tentamos encontrar rapidamente uma resposta, mais confusos podemos ficar.
É neste território que encontramos a oitava emoção da nossa Biblioteca das Emoções:
CONFUSÃO
No livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, a confusão é apresentada como uma emoção ligada à desorientação e à reorganização cognitiva. Ela pode surgir quando existe uma discrepância entre aquilo que já sabemos e aquilo que estamos agora a perceber.
Talvez, então, a confusão não esteja simplesmente a dizer:
“Não consigo compreender.”
Talvez esteja a dizer:
“A forma como compreendia já não é suficiente.”
QUANDO AS PEÇAS DEIXAM DE ENCAIXAR
Imagine um puzzle.
Durante muito tempo, acreditou saber qual era a imagem.
Foi colocando as peças.
Algumas encaixaram perfeitamente.
Até aparecer uma peça que não cabe em lugar nenhum.
Pode tentar forçá-la.
Pode fingir que ela não existe.
Pode ficar irritado.
Ou pode fazer uma pergunta:
“E se a imagem final não for exatamente aquela que eu imaginava?”
A confusão pode funcionar assim.
Às vezes não precisamos de encontrar imediatamente a peça certa.
Precisamos de rever a imagem inteira.
QUANTAS VEZES EXIGIMOS DE NÓS UMA RESPOSTA ANTES DE ESTARMOS PRONTOS PARA ELA?
Vivemos numa sociedade que valoriza respostas.
“O que quer?”
“Qual é a sua decisão?”
“Vai ou fica?”
“Sim ou não?”
“Qual é o seu plano?”
E existe uma resposta que muitas vezes temos dificuldade em assumir:
“Ainda não sei.”
Parece fraqueza.
Indecisão.
Falta de preparação.
Mas reconhecer que não sabemos tudo pode ser precisamente o início de uma nova aprendizagem. O capítulo mostra que a confusão pode obrigar-nos a abandonar interpretações rígidas, rever modelos mentais e procurar novas soluções.
Talvez exista maturidade em conseguir dizer:
“Ainda não compreendo isto. Preciso de tempo.”
E EM SI?
Existe alguma área da sua vida em que atualmente se sente confuso?
Uma relação?
Uma escolha profissional?
Uma mudança?
Uma decisão?
Um sentimento?
Uma parte de si próprio?
Agora pergunte:
O que exatamente não estou a compreender?
Quais são as duas ou mais ideias que entram em conflito dentro de mim?
Estou confuso porque não tenho informação suficiente?
Ou porque aquilo que estou a descobrir contradiz aquilo em que gostaria de acreditar?
Estou realmente sem resposta — ou não gosto da resposta que começa a aparecer?
Esta última merece ficar algum tempo consigo:
“Estou confuso porque não sei — ou porque começo a saber alguma coisa que ainda não quero aceitar?”
A CONFUSÃO ENTRE O QUE PENSO, SINTO E FAÇO
Existe ainda outro tipo de confusão.
Penso uma coisa.
Sinto outra.
Faço uma terceira.
Digo que quero mudar, mas continuo a repetir.
Digo que uma relação me faz mal, mas não consigo afastar-me.
Digo que desejo descanso, mas encho a agenda.
Digo que não me importa a opinião dos outros, mas continuo a procurar aprovação.
Quando estas partes não estão alinhadas, podemos sentir:
“Nem eu me compreendo.”
Talvez a pergunta não seja imediatamente:
“Qual delas está certa?”
Mas:
“O que cada uma destas partes está a tentar dizer-me?”
EXERCÍCIO DA SEMANA
O MAPA DA MINHA CONFUSÃO
Escolha uma situação concreta da sua vida em que atualmente se sente confuso.
Pegue numa folha e escreva no centro:
“EU AINDA NÃO SEI…”
Complete a frase.
Depois divida a folha em quatro partes:
O QUE EU SEI
Escreva apenas factos. Não interpretações.
O QUE EU PENSO
Coloque aqui as suas hipóteses, interpretações e explicações.
O QUE EU SINTO
Dê nome às emoções presentes, mesmo que sejam contraditórias.
O QUE EU AINDA NÃO SEI
Aqui não tente preencher os espaços.
Permita que existam perguntas sem resposta.
DURANTE SETE DIAS, NÃO TENTE RESOLVER
Esta é a parte mais importante do exercício.
Durante os próximos sete dias, volte a esta folha uma vez por dia.
Pergunte:
Algum facto novo apareceu?
Alguma interpretação minha mudou?
Alguma emoção ficou mais clara?
Existe alguma pergunta que já não preciso fazer?
Apareceu uma pergunta melhor?
Pode acrescentar, riscar, corrigir ou mudar de opinião.
Porque o objetivo não é demonstrar coerência.
É observar a reorganização.
O EXERCÍCIO DOS 2 MINUTOS
A parte prática de O Alfabeto das Emoções apresenta uma imagem especialmente interessante para esta emoção:
“A confusão é o meu pensamento a reorganizar-se.”
Quando se sentir confuso esta semana:
Coloque uma mão na testa e outra no peito.
Respire lentamente.
Não procure imediatamente uma solução.
Durante um minuto, permita-se simplesmente não saber.
Depois pergunte:
“O que está, neste momento, a reorganizar-se em mim?”
Observe o que aparece.
Não precisa decidir nada.
UMA PERGUNTA AINDA MAIS DIFÍCIL
Volte à situação que escolheu no início.
Agora imagine que ninguém iria julgá-lo pela decisão.
Ninguém ficaria dececionado.
Ninguém lhe diria o que deveria fazer.
Ninguém iria aplaudir.
Ninguém iria criticar.
Ficaria apenas consigo.
E pergunte:
“Se eu não precisasse justificar a minha escolha a ninguém, o que começaria a ficar mais claro?”
Às vezes existe confusão porque realmente ainda não sabemos.
Mas outras vezes existem vozes demais dentro da decisão.
NO FINAL DOS SETE DIAS
Pegue novamente na primeira folha.
Não procure necessariamente uma resposta.
Procure uma mudança de compreensão.
Complete:
“No início da semana eu pensava…”
Depois:
“Agora começo a perceber…”
E finalmente:
“Ainda não sei…, mas já compreendo…”
Esta última frase é importante.
Porque podemos ainda não ter uma decisão e, mesmo assim, estar muito menos perdidos.
A PERGUNTA DA SEMANA
O capítulo contém uma frase que resume muito bem esta emoção:
“Algo precisa de ser compreendido de outra forma.”
E talvez seja essa a mensagem da confusão.
Não necessariamente:
“Encontre rapidamente uma resposta.”
Mas:
“Pare. A forma antiga de compreender talvez já não seja suficiente.”
Quando prolongada ou muito intensa, naturalmente, a confusão pode tornar-se sobrecarga e gerar frustração ou bloqueio; o livro recomenda pausas, divisão de problemas complexos em partes menores e procura de apoio quando necessário.
Por isso, esta semana leve consigo:
“E se eu não estiver perdido? E se estiver apenas a descobrir que o mapa antigo já não me leva ao lugar para onde quero ir?”
Talvez algumas respostas não apareçam quando pensamos mais.
Talvez apareçam quando aprendemos a fazer perguntas diferentes.
NA PRÓXIMA SEMANA
📖 PARA APROFUNDAR ESTA EMOÇÃO
Esta reflexão e os exercícios da Semana 08 — Confusão foram inspirados e adaptados do livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, de Edmar Silva, especialmente do capítulo “Confusão — Da Desorientação e da Reorganização Cognitiva” e da parte prática da obra.
BIBLIOTERAPIA COM EDMAR — O ALFABETO DAS EMOÇÕES
Edmar Silva
O livro-base da Biblioteca das Emoções, para quem quiser aprofundar cada uma das 27 emoções.
📚 OUTRA LEITURA DE EDMAR SILVA
ÂNCORA — CARTAS PARA O INCONSCIENTE
Edmar Silva e Diamantina Caeiro
Para esta semana, este é o volume da coleção ÂNCORA que eu associaria à Confusão.
Porque nem tudo aquilo que acontece dentro de nós chega imediatamente sob a forma de uma resposta clara.
Às vezes chega como contradição.
Imagem.
Sensação.
Memória.
Pergunta.
Ou simplesmente como:
“Há alguma coisa aqui que ainda não compreendo.”
Se a Confusão nos mostra que o nosso mapa consciente pode precisar de ser reorganizado, Cartas para o Inconsciente convida-nos simbolicamente a escutar também aquilo que nem sempre conseguimos explicar de imediato.
E deixa-nos com uma última pergunta:
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