quinta-feira, 17 de setembro de 2020

SEMANA 10 — DOR EMPÁTICA

Do Sentir o Outro Dentro de Si

É possível estar profundamente presente na dor de alguém sem carregar essa dor como se fosse nossa?

Alguém que amamos sofre.

E alguma coisa acontece dentro de nós.

O peito aperta.

A garganta fecha.

Os olhos enchem-se de lágrimas.

Às vezes nem sabemos o que dizer.

Queremos ajudar.

Queremos proteger.

Queremos retirar aquela pessoa daquele lugar.

E talvez surja uma frase:

“Preferia estar a passar por isto no lugar dela.”

É neste território profundamente humano que encontramos a décima emoção da nossa Biblioteca das Emoções:

DOR EMPÁTICA

No livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, a dor empática é apresentada como a experiência de perceber o sofrimento de outra pessoa e, de algum modo, senti-lo dentro de nós. Não se trata apenas de compreender racionalmente que alguém sofre, mas de existir uma resposta emocional à dor do outro.

É aquilo que nos permite dizer:

“A dor é tua. Mas aquilo que te acontece também me toca.”


QUANDO A DOR DO OUTRO ENTRA EM NÓS

Não precisamos conhecer alguém profundamente para sentir dor empática.

Podemos senti-la diante de uma criança a chorar.

De uma pessoa idosa sozinha.

De alguém que perdeu uma pessoa querida.

De um amigo que recebe uma notícia difícil.

De uma injustiça.

De uma história num livro.

De uma cena num filme.

De um testemunho.

Até de alguém que nunca vimos antes.

O capítulo mostra precisamente que narrativas, livros, filmes, músicas e relatos de vulnerabilidade também podem despertar esta resposta emocional.

Talvez por isso a Biblioterapia seja também um exercício de empatia.

Quando entramos verdadeiramente numa história, durante algumas páginas deixamos de olhar apenas através dos nossos olhos.

Experimentamos o mundo através da experiência de outra pessoa.


MAS EXISTE UMA DIFERENÇA ENTRE SENTIR COM E SOFRER POR

Talvez aqui esteja o ponto central desta semana.

Imagine alguém que ama profundamente.

Essa pessoa está a sofrer.

Você escuta.

Acolhe.

Está presente.

Isso é diferente de começar a pensar:

“Tenho de resolver isto.”

“Não posso deixá-la sofrer.”

“Se ela está mal, eu também não posso estar bem.”

“Sou responsável por fazê-la sentir-se melhor.”

“Se eu me afastar um pouco, estou a abandoná-la.”

Nesse momento, talvez tenhamos atravessado uma fronteira.

EMPATIA NÃO É RESPONSABILIDADE PELA VIDA EMOCIONAL DO OUTRO.

O livro alerta que, quando a dor empática não é regulada, pode surgir sobrecarga, dificuldade em distinguir aquilo que sentimos daquilo que pertence ao outro, culpa por não conseguirmos ajudar suficientemente e desgaste emocional.


A PERGUNTA MAIS DIFÍCIL

Talvez algumas pessoas tenham aprendido desde cedo a perceber o estado emocional dos outros.

“A mãe está triste.”

“O pai está irritado.”

“É melhor não falar agora.”

“Preciso fazer alguma coisa para que todos fiquem bem.”

E pouco a pouco podemos aprender uma regra silenciosa:

“Só posso estar bem quando as pessoas que amo também estiverem bem.”

Mas pense no peso desta regra.

Se para estar em paz precisamos que todos à nossa volta estejam em paz...

quando poderemos verdadeiramente descansar?


E EM SI?

Pense numa pessoa cujo sofrimento o afeta profundamente.

Agora pergunte:

Quando esta pessoa sofre, consigo simplesmente estar presente?

Ou sinto imediatamente necessidade de resolver?

Consigo escutar sem dar conselhos?

Sinto culpa quando estabeleço limites?

Levo comigo os problemas das outras pessoas depois de terminar uma conversa?

Alguma vez me senti emocionalmente exausto depois de tentar ajudar alguém?

Consigo distinguir aquilo que é meu daquilo que pertence ao outro?

E talvez a pergunta mais importante:

“Estou a acompanhar esta pessoa na sua dor — ou estou a tentar viver a dor por ela?”


NEM TODA DOR PRECISA DE UMA SOLUÇÃO IMEDIATA

Às vezes alguém conta-nos algo difícil e imediatamente respondemos:

“Tem de fazer isto.”

“Não pense assim.”

“Vai passar.”

“Anime-se.”

“Eu no seu lugar…”

Talvez façamos isso porque queremos ajudar.

Mas talvez também porque é difícil permanecer diante da dor sem fazer nada para a retirar.

O capítulo propõe algo diferente: presença atenta, escuta e acolhimento sem a urgência de resolver imediatamente aquilo que a outra pessoa está a sentir.

Às vezes a frase mais empática pode ser simplesmente:

“Estou aqui.”


EXERCÍCIO DA SEMANA

ISTO É MEU OU É DO OUTRO?

Durante os próximos sete dias, observe os momentos em que a emoção de alguém entra consigo.

Quando isso acontecer, pare.

Respire.

E escreva:

O que aconteceu com a outra pessoa? __________

O que percebi que ela estava a sentir? __________

O que comecei eu próprio a sentir? __________

O que senti vontade de fazer imediatamente? __________

Agora faça duas colunas:

PERTENCE AO OUTRO

Coloque aqui aquilo que não pode controlar:

as escolhas da pessoa;

a sua reação;

o seu processo;

o seu tempo;

a sua decisão;

a forma como ela irá lidar com aquilo que está a viver.

Na segunda coluna escreva:

PERTENCE A MIM

A minha presença.

A minha escuta.

O apoio que posso oferecer.

Os meus limites.

A minha disponibilidade real.

A forma como cuido de mim depois daquela experiência.


A FRASE DE REGRESSO

Depois de preencher as duas colunas, coloque uma mão no peito.

Respire lentamente.

E diga:

“Posso sentir contigo sem precisar sentir por ti.”

Depois:

“Posso cuidar de ti sem me abandonar.”

E finalmente:

“Posso estar presente sem precisar resolver tudo.”


UMA EXPERIÊNCIA DE ESCUTA

Escolha esta semana uma conversa com alguém importante.

Quando essa pessoa falar de alguma dificuldade, experimente não interromper imediatamente com soluções.

Escute.

Pergunte:

“Quer apenas que eu o escute ou gostaria de pensar comigo sobre o que pode fazer?”

Esta pergunta pode transformar uma conversa.

Porque permite que o outro diga aquilo de que realmente precisa.

Talvez precise de conselho.

Talvez de ajuda concreta.

Mas talvez precise apenas de ser ouvido.


EMPATIA TAMBÉM PRECISA DE LIMITES

Existe uma ideia fundamental no capítulo:

compaixão equilibrada permite apoiar sem absorver integralmente a dor do outro.

Isto é particularmente importante para quem passa muito tempo a cuidar.

Profissionais de saúde.

Psicoterapeutas.

Cuidadores.

Professores.

Voluntários.

Familiares.

Pessoas que recebem constantemente os problemas dos outros.

Cuidar não significa estar disponível sem limite.

Um limite não significa necessariamente falta de amor.

Às vezes significa precisamente:

“Quero continuar a estar aqui sem desaparecer de mim.”


EXERCÍCIO: DA DOR À AÇÃO

Agora pense numa situação de sofrimento que o toca.

Pode ser individual ou social.

Pergunte:

“Existe alguma coisa concreta e proporcional que eu possa fazer?”

Talvez seja telefonar.

Ouvir.

Acompanhar alguém.

Fazer voluntariado.

Dar informação.

Oferecer uma refeição.

Ajudar numa tarefa.

Estar presente.

Ou simplesmente respeitar o espaço da pessoa.

Depois faça uma ação concreta.

O livro propõe precisamente esta passagem: transformar a dor empática em cuidado, responsabilidade e ação, em vez de permitir que se transforme apenas num peso emocional paralisante.


NO FINAL DOS SETE DIAS

Volte aos seus registos.

E procure responder:

“Com quem tenho maior dificuldade em estabelecer limites emocionais?”

Depois:

“Por que acredito que preciso carregar aquilo que essa pessoa sente?”

E finalmente:

“O que mudaria nas minhas relações se eu compreendesse que amar alguém não significa sofrer tudo por essa pessoa?”

Talvez encontre aqui uma diferença fundamental:

INDIFERENÇA: “A tua dor não me importa.”

FUSÃO: “A tua dor passa a ser minha.”

EMPATIA CONSCIENTE: “A tua dor importa-me. Estou contigo. Mas continuo a saber onde terminas tu e começo eu.”


A PERGUNTA DA SEMANA

A dor empática mostra algo extraordinário sobre nós:

somos capazes de sentir para além de nós próprios.

Ela pode aproximar-nos, favorecer cuidado, solidariedade, vínculos e responsabilidade pelo outro.

Mas o desafio está no equilíbrio.

O próprio capítulo encerra esta emoção propondo uma integração entre sensibilidade e limites, compaixão e autocuidado, presença e responsabilidade.

Por isso, esta semana leve consigo:

“Consigo abrir o coração à dor do outro sem fechar os olhos às minhas próprias necessidades?”

Porque talvez cuidar verdadeiramente de alguém não seja carregar a sua dor.

Talvez seja conseguir permanecer ao seu lado sem abandonar a nós próprios.


NA PRÓXIMA SEMANA

SEMANA 11 — EXCITAÇÃO
Da Energia, Possibilidade e Movimento


📖 PARA APROFUNDAR ESTA EMOÇÃO

Esta reflexão e os exercícios da Semana 10 — Dor Empática foram inspirados e adaptados do livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, de Edmar Silva, especialmente do capítulo “Dor Empática — Do Sentir o Outro Dentro de Si”.

Na obra, esta emoção é aprofundada na sua relação com a sensibilidade, a solidariedade, os limites emocionais, o autocuidado e a transformação da empatia em ação consciente.

BIBLIOTERAPIA COM EDMAR — O ALFABETO DAS EMOÇÕES

Edmar Silva

O livro-base da Biblioteca das Emoções e do percurso pelas 27 emoções.


📚 OUTRA LEITURA DE EDMAR SILVA

ÂNCORA — QUEM ESTÁ A ESCREVER A TUA HISTÓRIA?

Para a Dor Empática, regressaria ao primeiro ÂNCORA.

Porque existe uma pergunta que une profundamente os dois temas:

“Até onde termina a história do outro e começa a minha?”

Podemos amar.

Cuidar.

Acompanhar.

Sentir.

Ajudar.

Mas, quando começamos a viver exclusivamente em função daquilo que os outros sentem, podemos deixar silenciosamente de escrever algumas páginas da nossa própria história.

Por isso, depois desta semana, talvez valha a pena perguntar:

“Quanto da minha vida estou a escrever a partir daquilo que verdadeiramente sou — e quanto estou a escrever tentando salvar, proteger ou não dececionar os outros?”

Edmar Silva
Biblioterapia com Edmar

LER. SENTIR. COMPREENDER. TRANSFORMAR.

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