Da Emoção da Conexão Profunda, do Encontro e da Entrega
É possível entregar-se profundamente a alguém sem deixar de pertencer a si próprio?
Um olhar demora-se um pouco mais.
Uma conversa termina e continuamos a pensar nela.
Uma mensagem muda o nosso estado emocional.
Começamos a imaginar um próximo encontro.
Depois uma viagem.
Uma possibilidade.
Talvez um futuro.
Pouco a pouco, uma palavra começa a aparecer:
“Nós.”
É neste espaço criado entre duas pessoas que encontramos a décima quinta emoção da nossa Biblioteca das Emoções:
ROMANCE
No livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, o romance é apresentado como uma experiência afetiva complexa que integra atração, intimidade, vulnerabilidade, idealização, vínculo e projeção de futuro.
Não é apenas desejo.
Não é apenas paixão.
Não é apenas carinho.
É a construção emocional de um espaço partilhado.
QUANDO O “EU” ENCONTRA O “TU”
Antes daquela pessoa existir na nossa vida, existia:
EU.
Depois encontramos alguém.
E começa a surgir:
TU.
E, quando a ligação se aprofunda, aparece algo novo:
NÓS.
O livro utiliza precisamente esta ideia: o romance pode inaugurar um “nós”, um espaço relacional que amplia a identidade e passa a incluir uma dimensão partilhada.
Mas existe aqui uma questão fundamental.
Um relacionamento saudável não deveria transformar:
EU + TU = APENAS NÓS
Talvez seja mais próximo de:
EU + TU + NÓS
Eu continuo a existir.
Tu continuas a existir.
E existe alguma coisa que construímos juntos.
QUANDO NOS APAIXONAMOS PELA PESSOA — E PELO QUE IMAGINAMOS SOBRE ELA
O romance possui uma dimensão extraordinariamente criativa.
Não vemos apenas aquilo que existe.
Também imaginamos aquilo que poderá existir.
Projetamos viagens.
Conversas.
Uma casa.
Experiências.
Projetos.
Talvez envelhecer juntos.
O capítulo reconhece precisamente o papel da imaginação na construção da narrativa romântica: fantasiamos possibilidades, projetamos cenários futuros e revisitamos momentos significativos.
Mas aqui surge uma pergunta delicada:
“Estou apaixonado pela pessoa que está diante de mim — ou pela história que comecei a escrever sobre ela?”
A IDEALIZAÇÃO
No início de uma relação podemos ver:
as qualidades;
os gestos;
as semelhanças;
as possibilidades.
E talvez vejamos menos:
as diferenças;
os limites;
as incompatibilidades;
as fragilidades.
Não significa que aquilo que sentimos seja falso.
Significa apenas que:
apaixonar-se também pode envolver imaginação.
Com o tempo, a pessoa real começa inevitavelmente a aparecer.
E talvez seja aí que uma relação romântica enfrenta uma das suas maiores transições:
deixar de amar apenas aquilo que imaginámos para começar a conhecer verdadeiramente quem está connosco.
E EM SI?
Pense nas relações amorosas que viveu.
Não precisa pensar apenas na atual.
Pergunte:
Quando me apaixono, continuo a ouvir-me?
Costumo adaptar-me excessivamente para ser amado?
Tenho medo de dizer aquilo de que preciso?
Consigo dizer “não” sem acreditar que a relação ficará ameaçada?
Preciso da confirmação constante do outro para me sentir seguro?
Consigo manter interesses, amizades e espaços que também são meus?
Vejo a pessoa como ela é ou como gostaria que fosse?
E talvez uma das perguntas mais importantes:
“Quem me torno quando estou numa relação?”
AMAR NÃO DEVERIA EXIGIR DESAPARECER
Às vezes confundimos entrega com abandono de nós próprios.
Deixamos de fazer determinadas coisas.
Afastamo-nos de pessoas.
Silenciamos necessidades.
Aceitamos aquilo que nos magoa.
Mudamos para evitar conflitos.
E podemos dizer:
“Faço isto porque amo.”
Mas existe outra pergunta:
“Estou a fazer isto por amor — ou por medo de perder?”
O capítulo alerta precisamente para o risco de dependência emocional, idealização excessiva e diluição da identidade, defendendo um equilíbrio entre entrega e autonomia, intimidade e individualidade.
VULNERABILIDADE NÃO É DESAPARECIMENTO
Intimidade exige vulnerabilidade.
Dizer:
“Tenho medo.”
“Preciso de ti.”
“Isto magoou-me.”
“Não sei.”
“Senti ciúmes.”
“Tenho saudades.”
“Preciso de espaço.”
“Não concordo contigo.”
Tudo isto pode tornar-nos vulneráveis.
Mas vulnerabilidade consciente não significa abandonar os próprios limites.
O livro associa um romance saudável à comunicação aberta, expressão de necessidades e limites, presença afetiva, cuidado mútuo e respeito pela individualidade.
Talvez intimidade verdadeira seja conseguir dizer:
“Quero que me conheças — não apenas que gostes de mim.”
EXERCÍCIO DA SEMANA
EU — TU — NÓS
Pegue numa folha.
Divida-a em três partes.
Na primeira escreva:
EU
Quem sou independentemente de uma relação?
O que gosto de fazer?
Que valores são essenciais para mim?
Que sonhos são meus?
Que pessoas são importantes para mim?
Que espaço preciso preservar?
Na segunda escreva:
TU
O que reconheço no outro como verdadeiramente dele?
Que diferenças consigo respeitar?
Que escolhas não me pertencem controlar?
Que características talvez tenha tentado mudar?
Consigo permitir que o outro também seja diferente de mim?
Na terceira escreva:
NÓS
O que construímos juntos?
Que rituais temos?
Que sonhos partilhamos?
Que experiências queremos viver?
Que valores sustentam a relação?
O que precisamos cuidar melhor?
Depois olhe para as três partes.
E pergunte:
“Existe equilíbrio entre EU, TU e NÓS?”
EXERCÍCIO DOS SETE DIAS
UM GESTO POR DIA
Durante sete dias, pratique conscientemente um pequeno gesto relacional.
No final de cada dia escreva apenas:
“Hoje senti proximidade quando…”
E SE NÃO ESTIVER NUMA RELAÇÃO?
Esta semana continua a ser para si.
Talvez até de uma forma muito importante.
Pergunte:
“Que tipo de relação gostaria de construir?”
Não:
“Que pessoa quero encontrar?”
Mas:
“Quem quero ser quando encontrar alguém?”
Que tipo de parceiro quero tornar-me?
Que limites quero aprender a comunicar?
Que padrões não quero repetir?
Que comportamentos não quero voltar a aceitar?
Que espaço desejo preservar para mim?
Que tipo de intimidade quero construir?
Porque talvez antes de escolhermos alguém exista uma aprendizagem anterior:
aprender a reconhecer aquilo que queremos construir com alguém.
O AMOR NÃO SE ALIMENTA APENAS DE GRANDES MOMENTOS
Talvez pensemos no romance através de:
viagens;
jantares;
flores;
surpresas;
declarações.
Tudo isso pode ser bonito.
Mas uma relação é vivida sobretudo:
nas terças-feiras.
No cansaço.
Nas contas.
Nas pequenas conversas.
Na forma como respondemos.
Na disponibilidade.
No respeito.
Na capacidade de reparar depois de magoar.
Nos pequenos rituais.
O capítulo destaca precisamente conversas significativas, tempo de qualidade e rituais partilhados como formas de nutrir a intimidade.
Talvez o romance maduro seja menos:
“Como faço esta pessoa sentir borboletas?”
e mais:
“Como fazemos desta relação um lugar onde ambos conseguimos continuar a crescer?”
UMA CONVERSA PARA ESTA SEMANA
Se estiver numa relação e houver espaço seguro para esta conversa, proponha estas perguntas:
O que mais gostas naquilo que construímos?
Existe alguma coisa de que sentes falta?
Em que momentos te sentes verdadeiramente próximo de mim?
Existe alguma coisa que poderíamos fazer mais vezes?
Sentes que consegues ser tu próprio nesta relação?
E depois uma pergunta para ambos:
“O que precisamos cuidar hoje para não termos de tentar recuperar amanhã?”
Não é uma conversa para encontrar culpados.
É uma conversa para observar a relação.
NO FINAL DOS SETE DIAS
Volte ao exercício EU — TU — NÓS.
E responda:
“O que descobri sobre a forma como me relaciono?”
“O que faço quando tenho medo de perder alguém?”
“Que parte de mim tende a desaparecer numa relação?”
“O que preciso aprender a comunicar melhor?”
“Consigo amar alguém real ou continuo à procura da pessoa que imaginei?”
E finalmente:
“A relação que estou a construir permite que duas pessoas cresçam — ou exige que uma delas diminua para que a outra permaneça?”
A PERGUNTA DA SEMANA
O capítulo termina com uma síntese particularmente importante: trabalhar o romance significa aprender a equilibrar paixão e presença, idealização e realidade, entrega e autonomia.
Talvez romance maduro não seja encontrar alguém perfeito.
Talvez seja conseguir olhar para uma pessoa real, permitir que ela também nos veja de forma real e perguntar:
“Conseguimos construir alguma coisa verdadeira a partir daqui?”
Por isso, deixaria esta semana com uma última pergunta:
“Quando digo ‘nós’, ainda consigo reconhecer o ‘eu’ e o ‘tu’ que tornam esse ‘nós’ possível?”
Porque talvez amar profundamente não seja deixar de ser quem somos.
Talvez seja encontrar alguém diante de quem podemos continuar a tornar-nos quem somos.
NA PRÓXIMA SEMANA
📖 PARA APROFUNDAR ESTA EMOÇÃO
Esta reflexão e os exercícios da Semana 15 — Romance foram inspirados e adaptados do livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, de Edmar Silva, especialmente do capítulo “Romance — Da Emoção da Conexão Profunda, do Encontro e da Entrega”.
Na obra, o romance é aprofundado através da atração, intimidade, vulnerabilidade, idealização, construção de um “nós”, autonomia, comunicação e amadurecimento da relação.
BIBLIOTERAPIA COM EDMAR — O ALFABETO DAS EMOÇÕES
Edmar Silva
O livro-base da Biblioteca das Emoções e do percurso pelas 27 emoções.
📚 OUTRA LEITURA DE EDMAR SILVA
ÂNCORA — QUEM ESTÁ A ESCREVER A TUA HISTÓRIA?
Para esta semana, escolheria este ÂNCORA porque existe uma pergunta que atravessa profundamente os relacionamentos:
“Quanto da minha história continuo a escrever quando amo alguém?”
Uma relação pode transformar a nossa história.
Pode criar capítulos que nunca escreveríamos sozinhos.
Pode mudar planos.
Pode abrir possibilidades.
Mas o encontro com alguém não precisa significar entregar-lhe a autoria da nossa vida.
Talvez o desafio seja escrever:
a minha história,
ao lado da tua,
enquanto construímos algumas páginas em conjunto.
E deixaria o leitor com esta pergunta:
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