quinta-feira, 17 de setembro de 2020

SEMANA 14 — NOSTALGIA

Da Memória, do Tempo e da Doçura da Perda

De que sente saudades que sabe que nunca poderá viver exatamente da mesma maneira outra vez?

Uma música começa a tocar.

Um cheiro atravessa uma rua.

Encontramos uma fotografia esquecida.

Voltamos a uma cidade.

Abrimos uma gaveta.

Seguramos um objeto antigo.

Escutamos uma voz.

E, durante alguns segundos, já não estamos apenas aqui.

Estamos lá.

Noutra casa.

Noutra idade.

Com outras pessoas.

Com outro corpo.

Com outros sonhos.

Talvez até com uma versão de nós que já não existe.

É neste encontro entre aquilo que permanece e aquilo que passou que encontramos a décima quarta emoção da nossa Biblioteca das Emoções:

NOSTALGIA


UMA EMOÇÃO QUE TEM DOIS SABORES

A nostalgia tem uma característica particular.

Pode fazer-nos sorrir e entristecer quase ao mesmo tempo.

Existe prazer na recordação.

Mas também existe a consciência:

“Aquilo aconteceu — e não voltará exatamente daquela forma.”

No livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, a nostalgia é apresentada como uma experiência complexa e reflexiva, relacionada com a memória autobiográfica e com a comparação entre passado e presente. A sua natureza é profundamente agridoce: existe prazer na evocação de momentos significativos e, simultaneamente, uma tristeza subtil pela impossibilidade de os recuperar exatamente como foram.

Talvez a nostalgia seja a emoção que nos recorda:

“Foi tão importante que ainda vive dentro de mim.”


NÃO SENTIMOS SAUDADES APENAS DE PESSOAS

Podemos sentir saudades de uma casa.

De uma cidade.

De um cheiro.

De uma comida.

De uma música.

De uma época.

De uma amizade.

De uma relação.

De uma profissão.

De uma rotina.

De um Natal da infância.

De alguém que já partiu.

Mas existe uma nostalgia particularmente profunda:

a saudade de quem nós próprios já fomos.

A pessoa que tinha vinte anos.

A criança que brincava sem olhar para o relógio.

A versão de nós que acreditava em determinada coisa.

O corpo que tínhamos.

A coragem que talvez tivéssemos.

A ingenuidade que perdemos.

Uma fase da vida em que determinadas pessoas ainda estavam connosco.

O livro reconhece precisamente que a nostalgia pode surgir não apenas pela ausência de pessoas e lugares, mas também pela recordação de versões anteriores de nós próprios.

Por isso:

“De que versão de mim sinto saudades?”


UMA FOTOGRAFIA NÃO GUARDA APENAS UMA IMAGEM

Escolha mentalmente uma fotografia antiga.

Não olhe apenas para aquilo que aparece nela.

Pergunte:

Quem era eu naquele momento?

O que eu acreditava sobre a vida?

Quem estava comigo?

O que ainda não tinha acontecido?

Que sonhos eu tinha?

Que preocupações pareciam enormes e hoje já não existem?

O que aquela pessoa da fotografia ainda não sabia sobre a vida que viria depois?

Agora imagine que poderia entrar naquela fotografia durante um minuto.

O que diria à pessoa que você era?

E depois faça o contrário:

O que aquela versão antiga de si talvez dissesse à pessoa que é hoje?


A MEMÓRIA NÃO É APENAS UM LUGAR PARA ONDE VOLTAMOS

Talvez também seja um lugar de onde podemos trazer alguma coisa.

Uma lembrança de coragem.

Uma experiência de amor.

Uma capacidade que esquecemos.

Uma pessoa que acreditou em nós.

Um momento em que conseguimos superar alguma coisa difícil.

Uma frase que alguém nos disse.

Um lugar onde nos sentimos seguros.

O livro apresenta a nostalgia como uma experiência capaz de contribuir para a continuidade da identidade, fortalecer vínculos e até oferecer recursos internos em momentos difíceis.

Por isso, em vez de perguntar apenas:

“Do que sinto saudades?”

podemos perguntar:

“O que daquela época ainda posso trazer comigo?”


EXERCÍCIO DA SEMANA

A CAIXA DAS MEMÓRIAS

Escolha sete memórias significativas da sua vida.

Uma para cada dia desta semana.

Pode utilizar:

uma fotografia;

uma música;

um objeto;

uma carta;

um livro;

um cheiro;

um lugar;

ou simplesmente uma lembrança.

Todos os dias, permaneça alguns minutos com uma dessas memórias.

Depois escreva:

A memória que visitei hoje foi: __________

Eu tinha aproximadamente: __________ anos.

Quem estava comigo: __________

O que senti ao recordar: __________

Aquilo de que mais sinto saudades é: __________

O que esta memória me ensinou sobre mim: __________

E finalmente:

“O que desta história ainda vive em mim hoje?”


O EXERCÍCIO DA CARTA

Escolha uma das sete memórias.

Agora escreva:

“CARTA PARA QUEM EU ERA”

Comece:

“Querido eu de…”

e coloque a sua idade.

Depois escreva livremente.

Conte-lhe aquilo que aconteceu.

Aquilo que conseguiu.

Aquilo que perdeu.

Aquilo que aprendeu.

Aquilo que gostaria que ele soubesse.

Não precisa mostrar esta carta a ninguém.

No final escreva:

“Obrigado por me teres trazido até aqui.”

Depois permaneça alguns segundos em silêncio.


MAS EXISTE UMA ARMADILHA

A nostalgia também pode transformar o passado num lugar aparentemente perfeito.

“Naquele tempo era melhor.”

“As pessoas eram diferentes.”

“Eu era mais feliz.”

“A minha vida nunca mais será como antes.”

Talvez seja verdade que determinadas coisas eram melhores.

Mas existe uma pergunta necessária:

“Estou a recordar o passado inteiro — ou apenas as partes que a memória decidiu iluminar?”

O livro alerta que uma nostalgia excessivamente idealizada pode alimentar a sensação de que “o melhor já passou”, dificultando a experiência do presente e a criação de novas experiências.

Por isso, quando disser:

“Naquela época eu era feliz…”

experimente acrescentar:

“…e naquela época também existiam dificuldades que hoje talvez já não recorde com a mesma intensidade.”


HONRAR NÃO É VOLTAR

Talvez esta seja uma das distinções mais importantes da semana:

HONRAR O PASSADO ≠ VIVER NO PASSADO

Podemos amar aquilo que aconteceu.

Podemos sentir saudades.

Podemos guardar fotografias.

Podemos contar histórias.

Podemos regressar a lugares.

Podemos chorar pessoas.

Podemos agradecer fases da nossa vida.

Sem precisar desejar permanentemente voltar.

Porque algumas histórias foram importantes precisamente porque:

aconteceram, transformaram-nos e terminaram.


UMA PERGUNTA DIFÍCIL

Existe alguma memória à qual regressa frequentemente porque o presente não lhe oferece aquilo que aquela época oferecia?

Talvez pertença.

Afeto.

Aventura.

Reconhecimento.

Família.

Liberdade.

Segurança.

Amizade.

Propósito.

Pergunte:

“Aquilo de que sinto saudades pertence realmente ao passado — ou existe uma necessidade atual escondida dentro desta saudade?”

Por exemplo:

Talvez não sinta apenas saudades da universidade.

Talvez sinta falta de amizade.

Talvez não sinta apenas saudades de uma viagem.

Talvez sinta falta de aventura.

Talvez não sinta apenas saudades de uma relação.

Talvez sinta falta de intimidade.

Talvez não sinta apenas saudades da infância.

Talvez sinta falta de leveza.

Então surge outra possibilidade:

“Como posso criar hoje uma nova forma de viver aquilo de que sinto falta?”


EXERCÍCIO: UMA MEMÓRIA NOVA

Esta semana faça também algo aparentemente contraditório.

Depois de visitar o passado...

crie uma memória nova.

Não precisa ser extraordinária.

Convide alguém para tomar café.

Faça uma caminhada.

Visite um lugar diferente.

Cozinhe uma refeição especial.

Telefone a alguém.

Compre um livro.

Veja o pôr do sol.

Tire uma fotografia.

Comece alguma coisa.

Porque o livro propõe precisamente este equilíbrio: honrar o passado sem ficar fixado nele e continuar a criar experiências significativas no presente.

Talvez daqui a dez anos olhe para este dia e pense:

“Tenho saudades daquele momento.”


NO FINAL DOS SETE DIAS

Releia tudo.

Depois responda:

“Que períodos da minha vida aparecem com maior frequência nas minhas recordações?”

“O que existia neles que considero importante?”

“De quem sinto saudades?”

“De que versão de mim sinto saudades?”

“O que daquela versão ainda existe em mim?”

“O que posso recuperar sem precisar voltar ao passado?”

E finalmente:

“Estou apenas a guardar memórias — ou continuo também a criar uma vida que um dia merecerá ser lembrada?”


A PERGUNTA DA SEMANA

O capítulo termina com uma ideia particularmente bonita: trabalhar a nostalgia significa aprender a acolher a doçura da saudade, honrar o vivido e transformar a memória em fonte de sentido e força para continuar.

Talvez esta seja a grande aprendizagem da Semana 14:

O passado não precisa desaparecer para que possamos seguir em frente.

Podemos levá-lo connosco.

Não como uma casa onde precisamos continuar a morar.

Mas como uma raiz.

Algo que nos alimenta.

Que conta de onde viemos.

Sem decidir sozinho para onde vamos.

E deixaria esta pergunta consigo:

“Se hoje já está a transformar-se numa memória, estou a viver este dia de uma forma que gostaria de recordar?”


NA PRÓXIMA SEMANA

SEMANA 15 — ROMANCE
Da Emoção da Conexão Profunda, do Encontro e da Entrega


📖 PARA APROFUNDAR ESTA EMOÇÃO

Esta reflexão e os exercícios da Semana 14 — Nostalgia foram inspirados e adaptados do livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, de Edmar Silva, especialmente do capítulo “Nostalgia — Da Memória, do Tempo e da Doçura da Perda”.

Na obra, a nostalgia é aprofundada como uma experiência ligada à memória autobiográfica, identidade, passagem do tempo, vínculos, saudade e continuidade da nossa história pessoal.

BIBLIOTERAPIA COM EDMAR — O ALFABETO DAS EMOÇÕES

Edmar Silva

O livro-base da Biblioteca das Emoções e do percurso pelas 27 emoções.


📚 OUTRA LEITURA DE EDMAR SILVA

ÂNCORA — CARTAS PARA O INCONSCIENTE

Aqui existe uma ligação especialmente bonita.

A nostalgia pode ser despertada por uma fotografia, uma música, um lugar ou um objeto. Mas, por baixo da memória consciente, podem existir associações, imagens e significados que continuam a acompanhar-nos.

Às vezes pensamos que estamos apenas a recordar uma pessoa.

E talvez estejamos também a recordar quem éramos quando estávamos com ela.

Às vezes sentimos saudades de um lugar.

E talvez sintamos saudades da forma como nos sentíamos naquele lugar.

Por isso, Cartas para o Inconsciente pode prolongar esta semana através de uma pergunta:

“Quando o passado regressa à minha memória, o que está verdadeiramente a tentar dizer-me sobre o meu presente?”

E talvez exista uma carta que ainda não escrevemos:

não para voltar ao que passou, mas para agradecer aquilo que o passado deixou dentro de nós.

Edmar Silva
Biblioterapia com Edmar

LER. SENTIR. COMPREENDER. TRANSFORMAR.

Sem comentários:

Enviar um comentário