Do desejo até à conquista
E se aquilo que inveja no outro estiver a revelar alguma coisa que ainda não teve coragem de admitir que deseja para si?
“Não tenho inveja.”
“Nem queria aquilo.”
“Teve sorte.”
“Também, com as oportunidades que teve…”
“Não acho assim tão bom.”
“Qualquer pessoa conseguiria.”
Às vezes a inveja não aparece dizendo:
“Eu queria aquilo.”
Aparece dizendo:
“Aquilo nem tem assim tanto valor.”
Porque admitir um desejo pode obrigar-nos a enfrentar uma pergunta muito mais desconfortável:
“Se eu também quero isto, o que estou a fazer para construir algo semelhante na minha vida?”
É neste território que encontramos a vigésima quinta emoção da nossa Biblioteca das Emoções:
INVEJA
CIÚME E INVEJA NÃO SÃO A MESMA COISA
Na semana passada trabalhámos os Ciúmes.
Agora precisamos fazer uma distinção importante.
CIÚME
Tenho algo que considero importante e tenho medo de perder.
INVEJA
Vejo no outro algo que desejo, mas sinto que não possuo.
O próprio livro estabelece esta diferença: a inveja nasce da comparação social e da perceção de que outra pessoa possui uma qualidade, conquista ou condição que desejamos.
Por isso, enquanto o ciúme pergunta:
“E se eu perder?”
a inveja pode perguntar:
“Porque é que ele tem e eu não?”
É DIFÍCIL ADMITIR: “TENHO INVEJA”
Experimente dizer:
“Senti inveja.”
Talvez seja desconfortável.
Porque culturalmente aprendemos a associar a inveja a algo moralmente negativo.
Então escondemo-la.
Mas uma emoção que não reconhecemos não desaparece necessariamente.
Pode transformar-se em:
ressentimento;
crítica;
competição silenciosa;
desvalorização do outro;
autocrítica;
comparação constante.
O capítulo descreve precisamente algumas destas manifestações mais subtis da inveja.
Por isso, talvez o primeiro passo seja simplesmente:
“Sim. Isto despertou inveja em mim.”
Sem orgulho.
Sem culpa.
Com curiosidade.
A INVEJA OLHA PARA O OUTRO — MAS FALA DE NÓS
Imagine que sente inveja de alguém que:
publicou um livro;
tem uma relação feliz;
viaja;
possui uma determinada carreira;
fala em público;
tem liberdade financeira;
parece confiante;
tem reconhecimento;
mudou de vida;
criou um projeto.
A pergunta habitual é:
“Porque aquela pessoa?”
Mas experimente trocar:
“O que exatamente naquela pessoa me incomoda?”
Talvez não seja a pessoa.
Talvez seja aquilo que ela representa.
EXERCÍCIO DA SEMANA
O ESPELHO DA INVEJA
Pense numa pessoa que já lhe despertou inveja.
Não precisa contar a ninguém.
Escreva o nome.
Depois responda:
“O que exatamente invejo nela?”
Não escreva apenas:
“a vida dela.”
Seja específico.
A liberdade?
O reconhecimento?
A aparência?
A coragem?
O dinheiro?
A criatividade?
A profissão?
A relação?
A disciplina?
A capacidade de comunicar?
A autonomia?
Agora pergunte:
“O que aquilo que invejo revela sobre alguma coisa que desejo para mim?”
Esta é precisamente uma das propostas centrais do capítulo: investigar qual qualidade, conquista ou atributo do outro desperta a inveja, porque isso pode revelar aspirações próprias ainda não reconhecidas.
TALVEZ A INVEJA SEJA UM DESEJO QUE AINDA NÃO ASSUMIMOS
Imagine:
“Tenho inveja de quem viaja.”
Talvez a necessidade seja:
liberdade.
“Tenho inveja de quem publicou um livro.”
Talvez exista:
vontade de criar.
“Tenho inveja daquela pessoa que mudou de profissão.”
Talvez exista:
desejo de mudança.
“Tenho inveja daquela relação.”
Talvez exista:
necessidade de intimidade.
“Tenho inveja da confiança daquela pessoa.”
Talvez exista:
um potencial que ainda não desenvolvi.
Então:
INVEJA → DESEJO → CONSCIÊNCIA
E agora surge uma pergunta:
“O que faço com esta informação?”
EXISTEM DUAS DIREÇÕES POSSÍVEIS
O capítulo distingue duas formas de inveja.
Uma pode desejar que o outro perca aquilo que possui.
A outra consegue transformar a conquista alheia em inspiração para o próprio crescimento.
Podemos representar assim:
INVEJA DESTRUTIVA
“Se eu não tenho, gostaria que tu também não tivesses.”
INVEJA TRANSFORMADORA
“Se tu conseguiste, talvez aquilo me mostre alguma coisa sobre o que também desejo construir.”
Uma olha para:
A QUEDA DO OUTRO.
A outra olha para:
O MEU PRÓXIMO PASSO.
O SUCESSO DO OUTRO DIMINUI O MEU?
Esta pergunta merece silêncio.
Quando alguém próximo conquista alguma coisa:
o que acontece dentro de si?
Consegue celebrar?
Compara-se?
Sente-se atrasado?
Pensa:
“E eu?”
O capítulo identifica uma crença particularmente importante:
“O sucesso alheio diminui o meu valor.”
Mas será verdade?
Se alguém publica um livro, isso impede-o de escrever?
Se alguém encontrou amor, isso prova que você não encontrará?
Se alguém prosperou profissionalmente, isso retirou-lhe competências?
Se alguém começou aos 30, 40, 50 ou 60 anos...
isso significa que chegou tarde?
Ou apenas:
que está a olhar para o percurso de outra pessoa a partir de um ponto diferente do seu?
A ARMADILHA DA COMPARAÇÃO
Nas redes sociais vemos:
a viagem;
o lançamento;
o casamento;
a promoção;
o palco;
a casa;
o prémio;
o corpo;
o sucesso.
Mas raramente vemos:
os anos anteriores;
as rejeições;
as dúvidas;
as tentativas;
os empréstimos;
os fracassos;
os bastidores;
as noites sem dormir;
as relações difíceis;
os privilégios;
as circunstâncias;
as renúncias.
Comparamos:
OS NOSSOS BASTIDORES
com
O PALCO DO OUTRO.
E depois concluímos:
“Estou atrasado.”
EXERCÍCIO
A COMPARAÇÃO JUSTA
Da próxima vez que se comparar, escreva:
“Estou a comparar-me com…”
Depois:
Temos a mesma história?
A mesma idade?
Os mesmos recursos?
As mesmas oportunidades?
Os mesmos obstáculos?
As mesmas prioridades?
Começámos no mesmo momento?
Provavelmente não.
Então pergunte:
“Qual é uma comparação mais justa?”
Talvez:
“Onde estou hoje em relação à pessoa que eu era há um ano?”
A INVEJA PODE SER UM MAPA
Imagine que a inveja não é uma sentença moral.
Imagine que é um marcador.
Ela aponta:
“ALI.”
Existe alguma coisa ali que chama a sua atenção.
Agora, em vez de atacar a pessoa que possui aquilo, pergunte:
“O que este sinal está a mostrar-me?”
O livro descreve a inveja integrada exatamente desta forma: ela pode revelar desejos não reconhecidos, potenciais por desenvolver e necessidades negligenciadas.
Esta é uma mudança enorme.
De:
“Porque ele?”
para:
“O que isto desperta em mim?”
EXERCÍCIO DOS TRÊS MOVIMENTOS
DA INVEJA À AÇÃO
Escolha uma inveja concreta.
Agora complete:
1 — EU INVEJO…
“Eu invejo nesta pessoa…”
2 — ISTO REVELA…
“Isso revela que eu gostaria de…”
3 — POSSO COMEÇAR…
“Uma ação possível para aproximar-me disso é…”
Exemplo:
“Tenho inveja de quem escreve livros.”
Pode transformar-se em:
“Tenho vontade de escrever.”
Depois:
“Esta semana vou escrever duas páginas.”
Agora temos:
INVEJA → DESEJO → DIREÇÃO → AÇÃO
MAS NEM TUDO O QUE INVEJAMOS QUEREMOS VERDADEIRAMENTE
Esta é outra pergunta importante.
Talvez invejemos:
o carro;
a casa;
o reconhecimento;
o número de seguidores;
a posição profissional.
Mas será que desejamos realmente aquilo?
Ou desejamos:
o que imaginamos que sentiríamos se tivéssemos aquilo?
Talvez não queira fama.
Talvez queira:
reconhecimento.
Talvez não queira aquela profissão.
Talvez queira:
liberdade.
Talvez não queira aquela casa.
Talvez queira:
segurança.
Pergunte:
“Quero aquilo — ou quero sentir aquilo que acredito que aquilo me faria sentir?”
EXERCÍCIO
O DESEJO POR BAIXO DO OBJETO
Escolha algo que inveja.
Complete:
“Se eu tivesse isto, acredito que me sentiria…”
Livre?
Valorizado?
Seguro?
Desejado?
Importante?
Realizado?
Amado?
Respeitado?
Depois pergunte:
“Existe outra maneira de começar a construir esta experiência na minha vida?”
Talvez a resposta seja muito diferente do objeto inicial.
GRATIDÃO E AMBIÇÃO PODEM EXISTIR JUNTAS
Cultivar gratidão não significa:
“Tenho de contentar-me com tudo.”
Podemos dizer:
“Reconheço aquilo que tenho.”
e simultaneamente:
“Quero construir algo diferente.”
O capítulo recomenda precisamente o cultivo da gratidão juntamente com autoestima e foco no próprio percurso.
Por isso:
GRATIDÃO NÃO PRECISA MATAR O DESEJO.
Pode impedir apenas que o desejo nos faça esquecer tudo aquilo que já existe.
O EXERCÍCIO DAS DUAS COLUNAS
Divida uma folha:
O QUE JÁ EXISTE NA MINHA VIDA
e
O QUE AINDA QUERO CULTIVAR
Preencha ambas.
Depois observe.
Uma coluna não precisa anular a outra.
Talvez maturidade seja conseguir dizer:
“Sou grato pelo que tenho e responsável pelo que ainda desejo construir.”
E SE, EM VEZ DE INVEJAR, PERGUNTÁSSEMOS?
Imagine alguém que possui uma qualidade que admira e inveja.
Em vez de pensar:
“Teve sorte.”
Talvez possa perguntar:
“Como conseguiu?”
“Quanto tempo levou?”
“O que precisou aprender?”
“Que erros cometeu?”
“O que me aconselharia?”
Nesse instante, a pessoa deixa de ser:
ameaça
e pode tornar-se:
referência.
O sucesso do outro transforma-se em informação.
TRANSFORMAR RIVAL EM PROFESSOR
Escolha uma pessoa que desperte comparação.
Agora escreva:
“O que esta pessoa pode ensinar-me?”
Talvez:
disciplina;
comunicação;
persistência;
ousadia;
organização;
criatividade;
capacidade de relacionamento;
consistência.
Não precisa tornar-se igual a ela.
Aprender com alguém não significa copiar a sua história.
UMA PERGUNTA DIFÍCIL
“Se aquela pessoa perdesse amanhã tudo aquilo que invejo, a minha vida melhoraria?”
Provavelmente não.
Então talvez exista uma constatação importante:
O fracasso do outro não constrói aquilo que falta em mim.
O capítulo é muito claro neste ponto: o crescimento depende das nossas escolhas, esforço e ação contínua — e não do insucesso alheio.
EXERCÍCIO DOS SETE DIAS
A INVEJA COMO BÚSSOLA
Durante sete dias, sempre que surgir comparação ou inveja, registe:
Quem despertou a emoção? __________
O que exatamente invejei? __________
O que pensei sobre a pessoa? __________
O que pensei sobre mim? __________
Que desejo meu apareceu? __________
Esse desejo é realmente meu? __________
Que competência precisaria desenvolver? __________
Qual pequeno passo depende de mim? __________
E termine cada registo:
“O sucesso desta pessoa não precisa diminuir-me. Pode ensinar-me alguma coisa sobre aquilo que desejo construir.”
NO FINAL DOS SETE DIAS
Releia tudo.
Procure padrões.
Talvez perceba que sente inveja repetidamente de pessoas:
mais livres;
mais criativas;
mais reconhecidas;
mais confiantes;
mais disciplinadas;
mais independentes;
mais aventureiras.
Agora pergunte:
“Qual é o tema que se repete?”
Talvez a inveja esteja a mostrar-lhe uma direção.
A PERGUNTA DA SEMANA
O capítulo termina com uma transformação muito poderosa: quando deixamos de utilizar a inveja para atacar o outro e começamos a investigá-la, podemos transformar comparação em inspiração e ressentimento em movimento.
Assim, esta semana não lhe proponho:
“Nunca mais sinta inveja.”
Proponho:
RECONHEÇA.
OBSERVE.
DESCUBRA O DESEJO.
SEPARE O QUE É SEU DO QUE É DO OUTRO.
TRANSFORME COMPARAÇÃO EM INFORMAÇÃO.
ESCOLHA UMA AÇÃO.
Porque talvez a inveja esteja diante do sucesso do outro a perguntar:
“Porque não eu?”
E talvez possamos responder com outra pergunta:
“O que preciso começar a fazer para descobrir aquilo de que também sou capaz?”
NA PRÓXIMA SEMANA
SEMANA 26 — ALEGRIA
Da Euforia à Felicidade
Estamos a chegar às duas últimas emoções da nossa jornada:
📖 PARA APROFUNDAR ESTA EMOÇÃO
Esta reflexão e os exercícios da Semana 25 — Inveja foram inspirados e adaptados do livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, de Edmar Silva, especialmente do capítulo “Inveja — Do desejo até a conquista”.
Na obra, a inveja é aprofundada na relação com comparação social, autoestima, desejo, ressentimento, inspiração, gratidão, objetivos e crescimento pessoal.
BIBLIOTERAPIA COM EDMAR — O ALFABETO DAS EMOÇÕES
Edmar Silva
O livro-base da Biblioteca das Emoções e do percurso pelas 27 emoções.
📚 OUTRA LEITURA DE EDMAR SILVA
ÂNCORA — SEMEIA A TUA HISTÓRIA
Para a Semana da Inveja, esta ligação é especialmente bonita.
Imagine duas árvores.
Uma olha para a outra e pensa:
“Porque é que ela já tem frutos e eu não?”
Mas talvez tenham sido plantadas:
em terrenos diferentes;
em momentos diferentes;
com sementes diferentes;
com diferentes quantidades de água;
sol;
vento;
cuidados.
E existe uma pergunta:
“Quanto tempo passamos a olhar para os frutos da árvore do outro enquanto deixamos de regar a nossa própria semente?”
Talvez a inveja possa transformar-se exatamente aqui.
Em vez de:
“Quero aquilo que nasceu na vida dele.”
passamos a perguntar:
“O que preciso começar a cultivar na minha?”
A ponte desta semana poderia ser:
COMPARAÇÃO → DESEJO → SEMENTE → CULTIVO → AÇÃO → CONQUISTA
Não podemos colher o fruto do outro.
Mas podemos descobrir o que queremos plantar.
E deixaria o leitor com uma última pergunta:
“Que semente minha está à espera de ser regada enquanto continuo ocupado a observar o jardim dos outros?”
Talvez aquilo que invejamos seja apenas uma pista.
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