quinta-feira, 17 de setembro de 2020

SEMANA 26 — ALEGRIA

Da Euforia à Felicidade

Será que sabemos procurar a felicidade, mas já não sabemos reconhecer a alegria quando ela acontece?

Esperamos pelas férias.

Pelo aniversário.

Por uma viagem.

Por uma promoção.

Pelo dinheiro.

Por uma conquista.

Por alguém.

Por aquele dia em que finalmente poderemos dizer:

“Agora sim, estou feliz.”

E enquanto esperamos pelos grandes acontecimentos...

talvez passem despercebidos:

um café tranquilo;

uma gargalhada;

uma conversa;

uma mensagem inesperada;

uma música;

um abraço;

um livro;

um pôr do sol;

uma refeição partilhada;

uma manhã em que acordámos simplesmente bem.

Talvez a alegria não esteja sempre onde fazemos mais barulho.

Talvez esteja onde conseguimos estar verdadeiramente presentes.

Chegamos à vigésima sexta emoção da nossa Biblioteca das Emoções:

ALEGRIA


ALEGRIA NÃO É APENAS PRAZER

Comer algo de que gostamos pode dar prazer.

Comprar alguma coisa pode dar prazer.

Receber uma notícia pode provocar euforia.

Mas o livro estabelece uma distinção importante: o prazer tende a estar associado a estímulos específicos e momentâneos, enquanto a alegria pode constituir uma experiência mais ampla, relacionada com bem-estar, significado e abertura ao mundo.

Então talvez exista uma pergunta:

“O que me dá prazer — e o que me dá alegria?”

Nem sempre serão as mesmas coisas.


QUANDO FOI A ÚLTIMA VEZ QUE SE SENTIU VERDADEIRAMENTE VIVO?

Não pergunto:

“Quando esteve tudo perfeito?”

Pergunto:

“Quando se sentiu vivo?”

Talvez tenha sido:

a caminhar;

a ensinar;

a aprender;

a escrever;

a dançar;

a viajar;

a conversar;

a ajudar alguém;

a criar;

a brincar com uma criança;

a estar com amigos;

a contemplar a natureza;

a fazer algo aparentemente simples.

Agora pergunte:

“O que existia naquele momento que existe pouco na minha vida atual?”

Talvez a resposta seja uma pista.


EXERCÍCIO DA SEMANA

O MAPA DA MINHA ALEGRIA

Pegue numa folha e escreva no centro:

“EU SINTO-ME VIVO QUANDO…”

Agora complete pelo menos dez vezes.

Não pense apenas em acontecimentos extraordinários.

Inclua coisas pequenas.

Depois observe as respostas.

Existem pessoas que aparecem repetidamente?

Lugares?

Natureza?

Criatividade?

Silêncio?

Movimento?

Aprendizagem?

Serviço?

Afeto?

Liberdade?

Talvez esteja a construir:

um mapa das suas fontes de alegria.


EXISTE ALEGRIA QUE FAZ BARULHO

Há alegria que grita.

Uma conquista.

Um reencontro.

Um nascimento.

Uma vitória.

Uma festa.

Uma viagem.

Uma gargalhada impossível de controlar.

Podemos chamar-lhe entusiasmo, celebração, euforia.

Mas existe também:

A ALEGRIA QUE QUASE NÃO FAZ BARULHO.

Acordar e perceber que dormimos bem.

Sentar ao sol.

Ouvir uma pessoa querida.

Sentir o cheiro da comida.

Ler uma frase e ficar alguns segundos em silêncio.

Perceber:

“Estou bem aqui.”

O capítulo reconhece precisamente diferentes manifestações da alegria, desde entusiasmo e êxtase até gratidão, serenidade e contentamento.


TALVEZ TENHAMOS CONFUNDIDO ALEGRIA COM EUFORIA

Se esperamos sentir intensidade permanentemente, a vida normal pode parecer insuficiente.

Mas ninguém consegue viver continuamente no auge emocional.

Talvez a alegria madura não precise estar sempre no máximo.

Pode existir:

na serenidade;

na presença;

no contentamento;

na gratidão;

no sentido.

Então pergunte:

“Consigo reconhecer alegria mesmo quando ela chega devagar?”


A ALEGRIA TAMBÉM PODE DAR MEDO

Isto parece estranho.

Mas talvez já tenha acontecido consigo.

Tudo está bem.

E imediatamente surge:

“Espero que não aconteça nada.”

Ou:

“Está bom demais.”

Ou:

“Isto não vai durar.”

E, de repente, já não estamos a viver a alegria.

Estamos a preparar-nos para perdê-la.

O livro reconhece precisamente esta dificuldade: algumas pessoas têm dificuldade em sustentar experiências positivas porque a alegria pode ser associada a vulnerabilidade, medo da perda ou sensação de não merecimento.


UMA PERGUNTA IMPORTANTE

“Quando alguma coisa boa acontece, consigo recebê-la — ou começo imediatamente a preparar-me para quando terminar?”

Observe-se esta semana.

Alguém elogia-o.

Consegue receber?

Uma coisa corre bem.

Consegue celebrar?

Está feliz.

Consegue simplesmente estar feliz?

Ou aparece:

“Sim, mas…”

Talvez tenhamos aprendido tão bem a antecipar problemas que já não sabemos permanecer inteiramente numa experiência boa.


EXERCÍCIO

30 SEGUNDOS A MAIS

Sempre que alguma coisa agradável acontecer esta semana:

não passe imediatamente para a próxima coisa.

Fique 30 segundos.

Se alguém o abraçar:

fique presente.

Se ouvir uma música bonita:

escute.

Se alguém lhe disser algo bom:

receba.

Se vir uma paisagem:

olhe.

Se estiver a rir:

perceba que está a rir.

Se sentir tranquilidade:

não procure imediatamente uma preocupação.

Durante 30 segundos diga mentalmente:

“ISTO ESTÁ A ACONTECER AGORA.”

Talvez uma parte importante da alegria seja:

permitir que a experiência entre.


NÃO ADIE TODA A ALEGRIA PARA O FUTURO

“Quando me reformar…”

“Quando tiver dinheiro…”

“Quando emagrecer…”

“Quando mudar de casa…”

“Quando encontrar alguém…”

“Quando os filhos crescerem…”

“Quando terminar este projeto…”

Então finalmente:

vou viver.

Mas existe uma pergunta difícil:

“Quanto da minha vida estou a transformar numa sala de espera?”

Ter objetivos é importante.

Construir o futuro também.

Mas o futuro nunca chega com esse nome.

Quando chega, chama-se presente.


EXERCÍCIO

A LISTA DO “QUANDO”

Escreva cinco frases que comecem por:

“Quando __________, então vou…”

Por exemplo:

“Quando tiver mais tempo, vou encontrar os meus amigos.”

Agora pergunte:

“Existe uma versão pequena disto que posso viver já?”

Talvez não possa fazer uma viagem de três semanas.

Mas pode fazer uma caminhada.

Talvez não possa tirar um mês de férias.

Mas pode proteger uma tarde.

Talvez não possa mudar toda a vida hoje.

Mas talvez possa introduzir nela alguma coisa que lhe devolva vitalidade.


A ALEGRIA E A GRATIDÃO

Existe uma diferença entre:

“Tenho de agradecer porque há pessoas em situação pior.”

e:

“Consigo reconhecer aquilo que existe de bom na minha vida.”

A primeira pode transformar gratidão em culpa.

A segunda transforma-a em presença.

O livro identifica a gratidão como uma das práticas que podem ampliar e sustentar a alegria, juntamente com conexão humana, propósito e autocuidado.


O DIÁRIO DAS TRÊS ALEGRIAS

Durante sete noites escreva:

1. UMA ALEGRIA QUE RECEBI HOJE

Algo que aconteceu.

2. UMA ALEGRIA QUE CRIEI HOJE

Algo que fez por si ou por alguém.

3. UMA ALEGRIA QUE QUERO CULTIVAR AMANHÃ

Uma pequena intenção.

Não procure acontecimentos extraordinários.

Talvez escreva:

“Bebi café ao sol.”

“Telefonei a um amigo.”

“Li vinte minutos.”

“Caminhei.”

“Ri-me.”

“Descansei.”

“Cozinhei.”

“Disse a alguém que gosto dele.”

Depois de sete dias pergunte:

“Será que havia mais alegria na minha vida do que eu estava a perceber?”


ALEGRIA TAMBÉM É RELAÇÃO

Existem alegrias que crescem quando são partilhadas.

Dar uma notícia.

Celebrar.

Rir juntos.

Contar uma história.

Ajudar alguém.

Estar presente.

O capítulo associa a alegria ao fortalecimento dos vínculos, à criatividade e à resiliência emocional.

Por isso, faça uma experiência:

Partilhe uma alegria esta semana.

Não uma queixa.

Não um problema.

Não uma preocupação.

Uma alegria.

Ligue a alguém e diga:

“Queria contar-te uma coisa boa que me aconteceu.”

E observe o que acontece.


E QUANDO O OUTRO ESTÁ FELIZ?

Existe outra capacidade emocional importante:

conseguir alegrar-nos com a alegria de alguém.

Na semana passada falámos de inveja.

Agora faça a experiência contrária.

Quando alguém lhe contar uma conquista:

não compare imediatamente.

Não procure aquilo que lhe falta.

Pergunte:

“Como foi isso para ti?”

“O que sentiste?”

“Conta-me mais.”

Talvez consigamos descobrir:

A ALEGRIA DO OUTRO NÃO PRECISA DIMINUIR A NOSSA.

Pode ampliar o espaço onde a alegria existe.


ALEGRIA NÃO SIGNIFICA NEGAR A DOR

Esta é talvez uma das partes mais importantes desta semana.

Alegria não significa:

“Está tudo bem.”

quando não está.

Não significa ignorar tristeza.

Não significa fugir do medo.

Não significa negar perdas.

Não significa obrigar-se a ser positivo.

O próprio livro afirma algo essencial:

A ALEGRIA MADURA NÃO IMPLICA AUSÊNCIA DE DOR.

Está relacionada com a capacidade de atravessar a dor sem perder completamente o eixo interno.

Podemos estar de luto...

e rir.

Podemos estar preocupados...

e sentir gratidão.

Podemos atravessar um período difícil...

e viver um momento bonito.

Uma emoção não precisa cancelar todas as outras.


NÃO SE CULPE POR ESTAR BEM

Algumas pessoas sentem culpa quando voltam a rir depois de uma perda.

Como se a alegria significasse:

“Já não me importo.”

Mas talvez seja possível:

HONRAR O QUE PERDEMOS E CONTINUAR A VIVER.

Voltar a sentir alegria não apaga aquilo que amámos.

Talvez seja precisamente um sinal de que a vida continua a encontrar caminhos dentro de nós.


EXERCÍCIO

A MINHA ALEGRIA TEM RAÍZES ONDE?

Complete:

Sinto alegria quando estou com…

Sinto alegria quando faço…

Sinto alegria quando aprendo…

Sinto alegria quando ofereço…

Sinto alegria quando crio…

Sinto alegria quando estou em…

Sinto alegria quando me permito…

Agora observe:

Quantas destas coisas estão atualmente presentes na minha semana?

Porque talvez saibamos perfeitamente aquilo que nos faz bem...

mas tenhamos deixado de reservar espaço para isso.


A AGENDA TAMBÉM REVELA AS NOSSAS PRIORIDADES

Abra a agenda da última semana.

Observe.

Quanto tempo foi dedicado a:

obrigações?

trabalho?

problemas?

tarefas?

E quanto foi dedicado a:

relações?

descanso?

criatividade?

natureza?

leitura?

movimento?

prazer?

silêncio?

O objetivo não é viver apenas fazendo aquilo de que gostamos.

Isso seria irrealista.

A pergunta é:

“Existe algum espaço na minha vida para aquilo que me devolve vida?”


CRIE UM COMPROMISSO COM A ALEGRIA

Escolha uma atividade do seu Mapa da Alegria.

Agora coloque-a na agenda da próxima semana.

Não escreva:

“Se tiver tempo.”

Marque.

Pode ser:

30 minutos de leitura;

uma caminhada;

um encontro;

uma ida ao mar;

cozinhar;

dançar;

escrever;

estar em silêncio;

visitar alguém;

fazer algo criativo.

O capítulo propõe precisamente práticas quotidianas como gratidão, movimento, descanso, criatividade e conexão humana para sustentar a alegria de forma mais consciente.


FELICIDADE NÃO É UMA VIDA SEM PROBLEMAS

Talvez tenhamos criado uma imagem impossível:

“Serei feliz quando tudo estiver resolvido.”

Mas quando é que tudo estará resolvido?

Depois de um problema...

aparece outro.

Depois de uma preocupação...

surge outra.

Talvez a questão seja menos:

“Como construo uma vida onde nada corre mal?”

e mais:

“Como construo uma vida onde, mesmo quando existem dificuldades, continuam a existir coisas que fazem sentido?”


EXERCÍCIO DOS SETE DIAS

A ARQUEOLOGIA DA ALEGRIA

Durante uma semana, procure conscientemente momentos em que sentiu:

contentamento;

leveza;

entusiasmo;

gratidão;

serenidade;

conexão;

vitalidade.

Sempre que encontrar um, registe:

O que estava a acontecer? __________

Com quem estava? __________

O que senti no corpo? __________

Que necessidade estava a ser nutrida? __________

Que valor meu estava presente? __________

Posso criar mais espaço para experiências semelhantes? __________

No final, procure padrões.

O livro relaciona a alegria autêntica precisamente com a coerência entre valores, ações, identidade, vitalidade e sentido.


NO FINAL DOS SETE DIAS

Releia tudo.

Depois pergunte:

“O que verdadeiramente me traz alegria?”

“O que apenas me distrai?”

“Consigo receber coisas boas sem antecipar imediatamente a perda?”

“Tenho adiado demasiado aquilo que me faz sentir vivo?”

“Que pessoas ampliam a minha alegria?”

“Que atividades me devolvem vitalidade?”

“Existe alegria suficiente na forma como organizei a minha vida?”

E talvez a pergunta mais importante:

“Se eu já sei algumas das coisas que me fazem bem, por que lhes dou tão pouco espaço?”


A PERGUNTA DA SEMANA

O livro propõe que cultivar alegria não significa fugir da realidade, mas aprender a reconhecê-la como um recurso interno, sustentado por presença, conexão, propósito, autocuidado e coerência com aquilo que dá sentido à nossa vida.

Por isso, esta semana não lhe proponho:

“Seja feliz.”

Isso seria demasiado simples.

Proponho:

REPARE.

RECEBA.

AGRADEÇA.

PARTILHE.

CULTIVE.

PERMANEÇA UM POUCO MAIS.

Porque talvez a felicidade não seja uma emoção que conseguimos segurar permanentemente.

Mas podemos aprender a não passar distraídos pelos momentos em que ela bate à nossa porta.

A alegria nem sempre precisa ser procurada. Às vezes precisa apenas ser reconhecida.


NA PRÓXIMA SEMANA — A ÚLTIMA

Chegaremos à Semana 27.

Depois de atravessarmos 26 emoções, terminaremos a nossa Biblioteca das Emoções com uma palavra que atravessa praticamente todas as histórias humanas:

AMOR

O que é o amor: emoção ou sentimento?

E talvez, depois de 26 semanas, a pergunta já não seja apenas:

“O que é o amor?”

Talvez seja:

“O que aprendemos sobre a maneira como amamos depois de conhecermos melhor aquilo que sentimos?”


📖 PARA APROFUNDAR ESTA EMOÇÃO

Esta reflexão e os exercícios da Semana 26 — Alegria foram inspirados e adaptados do livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, de Edmar Silva, especialmente do capítulo “Alegria — Da Euforia a Felicidade”.

Na obra, a alegria é aprofundada na sua relação com vitalidade, presença, significado, gratidão, vínculos, propósito, criatividade, autocuidado e capacidade de sustentar experiências positivas.

BIBLIOTERAPIA COM EDMAR — O ALFABETO DAS EMOÇÕES

Edmar Silva

O livro-base da Biblioteca das Emoções e do percurso pelas 27 emoções.


📚 OUTRA LEITURA DE EDMAR SILVA

ÂNCORA — A ARTE DE ESTAR CONSCIENTE

Nesta penúltima semana, escolheria este ÂNCORA por uma razão muito simples:

também precisamos estar conscientes para perceber quando estamos felizes.

Passámos grande parte deste percurso a aprender a reconhecer:

medo;

raiva;

tristeza;

culpa;

vergonha;

ansiedade.

Mas consciência emocional não serve apenas para perceber aquilo que dói.

Serve também para reconhecer aquilo que nos faz bem.

A ponte desta semana poderia ser:

PRESENÇA → PERCEÇÃO → ALEGRIA → GRATIDÃO → CONSCIÊNCIA

E deixaria uma pergunta final:

“Quantos momentos bons da minha vida já aconteceram enquanto a minha atenção estava ocupada à procura da próxima coisa?”

Talvez estar consciente seja também conseguir parar diante de um instante simples e reconhecer:

“Isto é bom.”

“Eu estou aqui.”

“Eu estou a viver isto.”

E, por alguns segundos...

não precisar de mais nada.

Edmar Silva
Biblioterapia com Edmar

LER. SENTIR. COMPREENDER. TRANSFORMAR.

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