Do Ameaçador, do Desconhecido e do Incompreensível
O que acontece dentro de nós quando vemos alguma coisa e pensamos: “Isto não deveria estar a acontecer”?
Existem coisas que nos assustam.
Outras causam repulsa.
Mas algumas atravessam uma fronteira diferente.
Ficamos paralisados.
Desviamos o olhar.
O corpo reage.
Não conseguimos compreender.
E talvez surja uma frase:
“Como é possível?”
É neste território que encontramos a décima segunda emoção da nossa Biblioteca das Emoções:
HORROR
No livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, o horror é apresentado como uma emoção complexa, próxima do medo e do nojo, mas com uma característica particular: pode surgir quando alguma coisa rompe profundamente as nossas referências de segurança, humanidade, moralidade ou compreensão do mundo.
Talvez por isso o horror não diga apenas:
“Tenho medo.”
Pode dizer:
“Isto ultrapassa aquilo que consigo aceitar ou compreender.”
QUANDO O MUNDO DEIXA DE FAZER SENTIDO
Gostamos de acreditar que existe alguma ordem.
Que determinadas coisas não deveriam acontecer.
Que existem limites.
Que as pessoas deveriam respeitar certos princípios.
Que há comportamentos que pertencem ao território do inadmissível.
Até que encontramos alguma coisa que rompe essa expectativa.
Uma violência.
Uma crueldade.
Uma injustiça extrema.
Uma situação que ameaça profundamente a integridade de alguém.
Ou simplesmente algo tão perturbador que a nossa mente demora a conseguir organizá-lo.
O capítulo apresenta uma formulação muito forte para este momento:
“Isto não deveria estar a acontecer.”
Talvez esta frase revele uma função importante do horror.
Ele não mostra apenas aquilo que rejeitamos.
Também pode revelar aquilo que consideramos profundamente importante proteger.
O HORROR TAMBÉM FALA DOS NOSSOS VALORES
Se ficamos profundamente perturbados diante da crueldade, talvez exista em nós um valor relacionado com a compaixão.
Se uma injustiça nos parece intolerável, talvez a justiça ocupe um lugar importante na nossa estrutura moral.
Se a desumanização nos horroriza, talvez valorizemos profundamente a dignidade humana.
Por isso existe uma pergunta interessante:
“Aquilo que considero intolerável revela o quê sobre aquilo que considero essencial?”
O livro descreve precisamente o horror como uma emoção capaz de funcionar como marcador de fronteiras físicas, psicológicas e éticas, sinalizando aquilo que ultrapassa determinados limites.
E EM SI?
Sem procurar deliberadamente recordações demasiado perturbadoras, pense numa situação em que alguma coisa lhe provocou uma forte sensação de:
“Isto está profundamente errado.”
Agora pergunte:
O que exatamente me perturbou?
Foi a ameaça?
A crueldade?
A injustiça?
A perda de controlo?
O desconhecido?
A incapacidade de compreender?
Que valor meu senti que estava a ser violado?
Que limite foi ultrapassado?
E finalmente:
“O meu horror está apenas a mostrar aquilo que rejeito — ou também aquilo que quero proteger?”
O CORPO SABE ANTES DAS PALAVRAS
O horror pode ser intensamente corporal.
O coração acelera.
A respiração altera-se.
Os músculos ficam tensos.
Podemos sentir choque, náusea ou repulsa.
E os pensamentos podem tornar-se rápidos e fragmentados enquanto tentamos compreender aquilo que acabámos de perceber.
Por isso, nem sempre conseguimos explicar imediatamente:
“Por que isto me afetou tanto?”
Talvez o corpo já tenha reagido enquanto a mente ainda procura palavras.
E aqui encontramos novamente uma regra importante do nosso percurso:
OBSERVAR ANTES DE INTERPRETAR.
QUANDO PROCURAMOS VER MAIS DAQUILO QUE NOS FAZ MAL
Existe hoje uma questão especialmente relevante.
Recebemos uma notícia perturbadora.
Abrimos.
Depois outra.
Depois um vídeo.
Depois comentários.
Depois procuramos mais informações.
Quando percebemos, passámos muito tempo expostos ao mesmo acontecimento.
Talvez pensemos:
“Preciso saber tudo.”
Mas existe uma pergunta necessária:
“Informar-me sobre isto está a ajudar-me a compreender — ou estou apenas a aumentar a minha perturbação?”
O capítulo recomenda reconhecer limites e evitar exposição desnecessária a conteúdos perturbadores quando estes começam a sobrecarregar o sistema emocional.
Proteger-se não significa necessariamente ignorar o mundo.
Significa reconhecer quanto conseguimos receber sem nos perdermos naquilo que recebemos.
EXERCÍCIO DA SEMANA
A FRONTEIRA DO INACEITÁVEL
Nesta semana, não vamos procurar imagens, notícias ou experiências de horror.
Vamos trabalhar com valores e limites.
Pegue numa folha e escreva:
EXISTEM COISAS QUE PARA MIM SÃO INACEITÁVEIS PORQUE…
Complete livremente.
Depois escolha três valores que aparecem por trás das suas respostas.
Por exemplo:
Dignidade.
Respeito.
Justiça.
Liberdade.
Proteção.
Cuidado.
Verdade.
Humanidade.
Agora complete:
“Quando vejo __________ ser violado, alguma coisa dentro de mim reage porque valorizo __________.”
Observe.
Talvez o horror tenha começado a transformar-se em consciência de valores.
DO “ISTO É HORRÍVEL” PARA “O QUE POSSO PROTEGER?”
Agora escolha um dos valores que identificou.
Pergunte:
“Como posso viver este valor concretamente?”
Se escolheu respeito:
Como posso tratar melhor alguém esta semana?
Se escolheu dignidade:
Existe alguém que eu possa ajudar a sentir-se visto?
Se escolheu justiça:
Existe alguma pequena situação em que eu possa agir de forma mais justa?
Se escolheu humanidade:
Que gesto concreto de cuidado posso realizar?
Porque existe uma diferença entre:
ficar paralisado diante daquilo que rejeitamos
e
transformar aquilo que sentimos numa escolha sobre a forma como queremos viver.
EXERCÍCIO DOS 90 SEGUNDOS
REGRESSAR À SEGURANÇA
Se durante a semana algum conteúdo perturbador provocar uma reação emocional intensa, experimente:
Afaste-se do estímulo quando puder.
Coloque os pés no chão.
Observe lentamente o espaço à sua volta.
Identifique:
3 coisas que consegue ver.
2 sons que consegue ouvir.
1 sensação corporal que consegue reconhecer.
Depois pergunte:
“Existe neste momento uma ameaça real aqui, onde estou?”
Se a resposta for não, diga mentalmente:
“Aquilo que vi perturbou-me. Mas neste momento estou aqui.”
Respire.
Não precisa continuar a olhar.
NEM TUDO PRECISA SER VISTO ATÉ AO FIM
Talvez tenhamos criado uma ideia estranha de coragem:
“Tenho de aguentar.”
Não.
Podemos fechar um vídeo.
Podemos abandonar uma notícia.
Podemos dizer que não queremos ouvir determinados detalhes.
Podemos afastar-nos.
Podemos pedir ajuda.
Podemos reconhecer:
“Isto ultrapassa aquilo que consigo processar neste momento.”
O livro associa precisamente o trabalho com esta emoção à recuperação da segurança, à elaboração através da fala, escrita ou reflexão, ao apoio social e à criação de ambientes estáveis após experiências emocionalmente perturbadoras.
E se uma experiência continuar a provocar sofrimento intenso, pesadelos, evitação persistente ou forte perturbação, procurar apoio profissional pode ser uma forma importante de cuidado.
NO FINAL DOS SETE DIAS
Volte aos seus registos.
E complete:
“Aquilo que mais me perturba revela que valorizo…”
Depois:
“O limite que preciso proteger melhor na minha vida é…”
Depois:
“Existe algum conteúdo ao qual me exponho mais do que me faz bem?”
E finalmente:
“Em vez de apenas rejeitar aquilo que considero desumano, o que posso fazer para cultivar mais humanidade à minha volta?”
Talvez esta seja a transformação mais importante desta semana.
A PERGUNTA DA SEMANA
O livro define o horror como uma emoção que nos confronta com os limites do suportável nos planos físico, moral e psicológico. Ao mesmo tempo, ele pode alertar, proteger e recordar-nos da importância da integridade e da segurança.
Por isso, não terminaria esta semana perguntando:
“O que me horroriza?”
Terminaria perguntando:
“Aquilo que considero profundamente inaceitável está a ensinar-me o quê sobre a pessoa que escolho ser?”
Porque talvez algumas emoções nos mostrem aquilo que procuramos.
Outras aquilo que tememos.
E algumas mostram-nos as fronteiras que não queremos deixar de defender.
NA PRÓXIMA SEMANA
📖 PARA APROFUNDAR ESTA EMOÇÃO
Esta reflexão e os exercícios da Semana 12 — Horror foram inspirados e adaptados do livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, de Edmar Silva, especialmente do capítulo “Horror — Do Ameaçador, do Desconhecido e do Incompreensível”.
Na obra, esta emoção é aprofundada na sua relação com ameaça, repulsa, limites físicos e morais, proteção, regulação emocional e reconstrução da sensação de segurança.
BIBLIOTERAPIA COM EDMAR — O ALFABETO DAS EMOÇÕES
Edmar Silva
O livro-base da Biblioteca das Emoções e do percurso pelas 27 emoções.
📚 OUTRA LEITURA DE EDMAR SILVA
ÂNCORA — A ARTE DE ESTAR CONSCIENTE
Para esta semana, escolheria novamente este volume da coleção ÂNCORA, porque o Horror pode produzir uma reação tão intensa que se torna difícil separar imediatamente:
aquilo que aconteceu,
aquilo que o corpo sentiu,
aquilo que pensamos
e
o significado que atribuímos à experiência.
A Arte de Estar Consciente prolonga precisamente o movimento que estamos a cultivar nesta Biblioteca:
PERCEBER → OBSERVAR → DISTINGUIR → ESCOLHER
Depois de uma emoção intensa, consciência não significa fingir que nada aconteceu.
Significa conseguir regressar gradualmente a nós próprios para reconhecer:
“Isto afetou-me. O que faço agora com aquilo que senti?”
E talvez a pergunta que una as duas leituras seja:
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