A Emoção do Vínculo Profundo
É possível amar profundamente alguém sem nos perdermos nessa relação?
Há pessoas, lugares, ideias, animais, memórias ou experiências que não ocupam apenas um espaço na nossa vida.
Ocupam um espaço dentro de nós.
Sentimos vontade de estar perto. De cuidar. De proteger. De permanecer.
É nesse território emocional que encontramos a segunda emoção da nossa Biblioteca das Emoções:
ADORAÇÃO
No livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, a adoração é apresentada como uma emoção marcada pela ternura, pelo carinho e pela devoção por alguém ou por alguma coisa que reconhecemos como profundamente significativa.
Enquanto a admiração, que trabalhámos na primeira semana, nos leva a olhar para aquilo que percebemos como grandioso, a adoração faz outro movimento:
aproxima-nos.
Convida-nos ao vínculo, à ternura, à presença e ao cuidado.
Podemos senti-la ao olhar para um filho, para alguém que amamos, para um animal de estimação, para um lugar carregado de memórias ou até na relação com uma experiência espiritual, uma tradição ou algo que possui um profundo significado para nós.
Mas é precisamente aqui que começa a nossa reflexão desta semana.
QUANDO O VÍNCULO NOS APROXIMA — E QUANDO NOS APRISIONA?
Criar vínculos faz parte da experiência humana.
Precisamos de relações, pertença, proximidade e cuidado.
Mas talvez seja importante perguntarmo-nos:
Consigo estar profundamente ligado a alguém e continuar ligado a mim próprio?
Porque existe uma diferença entre:
O próprio livro coloca entre os elementos psicológicos da adoração a afetividade, o vínculo, a idealização moderada e o cuidado.
Por isso, talvez uma das aprendizagens desta emoção esteja justamente em descobrir:
como criar raízes numa relação sem deixar que essas raízes nos impeçam de continuar a crescer.
E EM SI?
Escolha uma pessoa, relação, lugar, ideia ou experiência pela qual sente um vínculo muito profundo.
Não procure responder rapidamente.
Observe.
O que faz com que esse vínculo seja tão importante para si?
O que sente quando imagina perder aquilo que adora?
Esse vínculo dá-lhe liberdade ou provoca-lhe medo?
Consegue dizer “não” à pessoa que ama sem sentir que poderá deixar de ser amado?
Já deixou de fazer alguma coisa importante para si apenas para não perder alguém?
Quanto daquilo que chama amor é cuidado — e quanto poderá ser necessidade de segurança?
E talvez a pergunta mais difícil:
“Quem sou eu quando retiro da minha identidade aquilo ou aquele que adoro?”
EXERCÍCIO DA SEMANA
AS RAÍZES DO MEU VÍNCULO
Durante esta semana escolha um vínculo significativo da sua vida.
Pode ser uma pessoa, uma relação familiar, um amigo, um animal, um lugar, uma crença, uma tradição, um projeto ou algo que represente muito para si.
Numa folha, escreva no centro:
EU E AQUILO A QUE ESTOU PROFUNDAMENTE LIGADO
Depois, durante os próximos sete dias, observe essa relação.
Sempre que alguma emoção relacionada com esse vínculo surgir, registe brevemente:
No final da semana, divida uma folha em duas partes.
De um lado escreva:
ESTE VÍNCULO AJUDA-ME A CRESCER QUANDO...
Do outro:
EU COMEÇO A PERDER-ME NESTE VÍNCULO QUANDO...
Escreva sem procurar respostas bonitas.
Procure respostas verdadeiras.
Depois observe as duas partes.
Talvez descubra que um vínculo saudável não precisa ser menos profundo.
Precisa apenas de permitir que existam duas pessoas inteiras dentro da relação.
UMA EXPERIÊNCIA PARA LEVAR CONSIGO
O livro propõe cultivar a adoração através da presença afetiva e do equilíbrio entre afeto e autonomia.
Por isso, escolha alguém importante para si e faça, durante esta semana, um gesto consciente de presença.
Não precisa comprar nada.
Pode ouvir verdadeiramente.
Telefonar.
Abraçar.
Agradecer.
Escrever algumas palavras.
Ou simplesmente estar presente sem tentar corrigir, aconselhar ou mudar o outro.
Depois observe:
“Consigo demonstrar o que sinto sem esperar alguma coisa em troca?”
A PERGUNTA DA SEMANA
Talvez a adoração nos ensine que vínculo profundo não significa possuir.
Nem controlar.
Nem desaparecer dentro do outro.
Pode significar permanecer, cuidar, reconhecer valor e construir sentido, sem deixar de existir como indivíduo. No livro, essa experiência é descrita como uma ligação que pode dirigir-se não apenas a uma pessoa, mas também à vida, à natureza, a um ideal ou àquilo que atribuímos profundo significado.
Durante esta semana, leve consigo apenas esta pergunta:
“Aquilo que amo profundamente ajuda-me a ser mais quem sou — ou faz-me ter medo de ser quem sou?”
Talvez a resposta lhe revele alguma coisa sobre a forma como constrói os seus vínculos.
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