quinta-feira, 17 de setembro de 2020

SEMANA 06 — CONSTRANGIMENTO

 Da Exposição e da Vulnerabilidade Social

Quantas vezes deixou de ser espontâneo porque começou a imaginar o que os outros pensariam de si?

Uma palavra que saiu errada.

Um tropeção.

Um silêncio numa conversa.

Uma pergunta que não soube responder.

Um elogio que não soube receber.

Uma opinião que gostaria de ter dado, mas preferiu guardar.

De repente, sentimos que todos estão a olhar para nós.

O rosto aquece.

Desviamos o olhar.

Talvez apareça um sorriso nervoso.

E surge uma vontade quase infantil:

“Quero desaparecer daqui.”

Bem-vindo à sexta emoção da nossa Biblioteca das Emoções:

CONSTRANGIMENTO

No livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, o constrangimento é apresentado como uma emoção profundamente social, que pode surgir quando nos sentimos expostos, observados ou avaliados inesperadamente.

E talvez exista aqui uma palavra fundamental:

OLHAR.

Não apenas aquilo que aconteceu.

Mas aquilo que imaginamos que os outros viram em nós.


O QUE SERÁ QUE ESTÃO A PENSAR DE MIM?

Tropeçamos.

Mas não é apenas o tropeção.

É alguém ter visto.

Esquecemos uma palavra durante uma apresentação.

Mas não é apenas a palavra.

É imaginar:

“Agora vão pensar que não sei.”

Dizemos alguma coisa inadequada.

E começamos imediatamente a rever mentalmente a cena.

“Por que disse aquilo?”

“O que terão pensado?”

“Devia ter ficado calado.”

O livro mostra precisamente esta dimensão: o constrangimento envolve autoconsciência elevada, sensação de exposição, preocupação com o julgamento dos outros e desejo de reparar a situação — ou simplesmente desaparecer por alguns instantes.

Mas existe uma questão ainda mais profunda:

Quanto da pessoa que mostramos ao mundo é espontâneo — e quanto foi cuidadosamente construído para evitar o constrangimento?


QUANDO COMEÇAMOS A VIVER PARA O OLHAR DO OUTRO

Talvez não percebamos quantas decisões aparentemente pequenas são influenciadas pelo medo de parecermos inadequados.

Não fazemos uma pergunta porque podemos parecer ignorantes.

Não dançamos porque podemos parecer ridículos.

Não usamos determinada roupa.

Não damos uma opinião.

Não publicamos algo.

Não começamos um projeto.

Não dizemos que não sabemos.

Não pedimos ajuda.

Não mostramos emoção.

Não dizemos:

“Eu errei.”

E, pouco a pouco, aquilo que começou como receio de passar vergonha pode transformar-se numa espécie de vigilância permanente:

“Como é que os outros me estão a ver?”

O livro alerta precisamente que, quando excessivo, o constrangimento pode favorecer medo da exposição, evitamento, autocensura e dificuldade em expressar autenticidade.

E então surge uma pergunta:

“Quem seria eu se não estivesse constantemente a imaginar a opinião dos outros sobre mim?”


E EM SI?

Pense numa situação recente em que se sentiu constrangido.

Volte mentalmente àquele momento.

Agora pergunte:

O que aconteceu realmente?

O que eu imaginei que os outros estavam a pensar?

Alguém disse aquilo que imaginei — ou fui eu que completei o pensamento dos outros?

O que tentei esconder naquele momento?

Um erro?

Uma fragilidade?

Desconhecimento?

Emoção?

Imperfeição?

E agora:

“Por que seria tão grave que alguém descobrisse que também sou imperfeito?”


UM PEQUENO TESTE

Complete rapidamente esta frase:

“Eu sentir-me-ia muito constrangido se as pessoas soubessem que eu…”

Não pense demasiado.

Escreva.

Agora leia aquilo que escreveu.

E pergunte:

“O que esta resposta revela sobre a imagem que tento preservar perante os outros?”

Talvez exista aí uma pista importante.

Porque às vezes o constrangimento não nos fala apenas da situação.

Fala-nos da personagem social que tentamos proteger.


EXERCÍCIO DA SEMANA

A CORAGEM DE SER IMPERFEITO

Durante os próximos sete dias, não vamos procurar situações constrangedoras.

Vamos fazer algo mais subtil:

observar o que fazemos para evitá-las.

Sempre que perceber que deixou de fazer ou dizer alguma coisa por receio do julgamento dos outros, registe:

O que eu queria fazer ou dizer? __________

O que temi que os outros pensassem de mim? __________

O que fiz para proteger a minha imagem? __________

O que teria acontecido se eu tivesse sido simplesmente espontâneo? __________

Qual seria realmente a pior consequência? __________

E termine com:

“Neste momento, tentei parecer __________ quando talvez pudesse simplesmente ser __________.”


UMA PEQUENA EXPERIÊNCIA DE AUTENTICIDADE

Em algum momento desta semana, permita-se dizer uma destas frases quando ela for verdadeira:

“Não sei.”

“Não percebi. Pode explicar novamente?”

“Enganei-me.”

“Preciso de ajuda.”

“Mudei de opinião.”

“Estou nervoso.”

“Isso deixou-me constrangido.”

Observe o que acontece.

Talvez descubra algo surpreendente:

mostrar uma pequena vulnerabilidade nem sempre nos afasta das pessoas. Por vezes, aproxima-nos.

O próprio livro atribui ao constrangimento uma função social: pode sinalizar que reconhecemos uma situação, ajudar-nos a ajustar comportamentos e contribuir para suavizar tensões nas relações.


O EXERCÍCIO DOS 60 SEGUNDOS

Existe ainda uma proposta da parte prática do livro que vale a pena trazer para esta semana.

Quando surgir um momento de constrangimento:

Coloque as mãos sobre o peito ou o abdómen.

Respire.

Relaxe os ombros.

Não tente apagar imediatamente aquilo que aconteceu.

Observe a sensação.

E diga mentalmente:

“O constrangimento revela que me importo.”

Depois pergunte:

“O que revela este momento sobre a minha coragem de me expor?”

Esta prática é diretamente inspirada no exercício dedicado ao constrangimento em O Alfabeto das Emoções.


NO FINAL DOS SETE DIAS

Releia tudo o que escreveu.

Procure padrões.

Talvez perceba que fica particularmente constrangido quando precisa demonstrar desconhecimento.

Ou quando recebe elogios.

Quando fala em público.

Quando mostra emoções.

Quando discorda.

Quando acredita que poderá dececionar alguém.

Agora escreva:

“O olhar dos outros torna-se mais importante do que a minha autenticidade quando…”

E depois:

“Se eu tivesse menos medo de parecer imperfeito, permitir-me-ia…”

Complete.

Talvez esta seja uma das frases mais importantes de toda a semana.


A PERGUNTA DA SEMANA

O livro recorda-nos que o constrangimento revela a nossa sensibilidade ao olhar do outro e a nossa necessidade de pertença. Mas também nos convida a acolher a vulnerabilidade e a reconhecer a imperfeição como parte da experiência humana.

Na parte prática da obra surge uma formulação ainda mais interessante:

o constrangimento pode humanizar.

Pode recordar-nos que não precisamos estar permanentemente certos, preparados, impecáveis ou no controlo para pertencermos.

Por isso, durante esta semana leve consigo esta pergunta:

“Quanto de mim estou a esconder apenas para não correr o risco de ser visto como realmente sou?”

Talvez a liberdade não esteja em nunca mais sentir constrangimento.

Talvez esteja em conseguir sentir aquele calor no rosto, sorrir e pensar:

“Sim. Também sou humano.”


NA PRÓXIMA SEMANA

SEMANA 07 — CALMA
A Emoção do Equilíbrio e da Regulação Interna


📖 PARA APROFUNDAR ESTA EMOÇÃO

Esta reflexão e os exercícios da Semana 06 — Constrangimento foram inspirados e adaptados do livro Biblioterapia com Edmar — O Alfabeto das Emoções, de Edmar Silva, especialmente do capítulo “Constrangimento — Da Exposição e da Vulnerabilidade Social” e das experiências práticas propostas na obra.

BIBLIOTERAPIA COM EDMAR — O ALFABETO DAS EMOÇÕES

Edmar Silva

Para quem desejar aprofundar esta emoção e continuar o percurso pelas 27 emoções.


📚 OUTRA LEITURA PARA CONTINUAR A REFLEXÃO

Nesta semana eu faria algo ligeiramente diferente: em vez de recomendar novamente um livro apenas porque é seu, ligaria cada obra ao tema somente quando a relação for realmente forte.

Para o Constrangimento, a ligação natural é com o trabalho que temos vindo a desenvolver em torno de:

A CORAGEM DE NÃO AGRADAR

Porque existe uma ponte evidente entre as duas questões:

“O que pensarão de mim?”

e

“Quanto das minhas escolhas nasce do medo de desagradar?”

Assim, a Biblioterapia das Emoções não se transforma num catálogo. Os seus livros vão aparecendo ao longo das 27 semanas quando acrescentam uma segunda porta de reflexão. Isso torna a recomendação muito mais credível e interessante para o leitor.

BIBLIOTERAPIA COM EDMAR
Onde os livros encontram as emoções e a consciência.

LER. SENTIR. COMPREENDER. TRANSFORMAR.

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